domingo, 16 de janeiro de 2011

O que estará se passando na cabeça de Ferreira Gullar?

Da editoria-geral do Terra Brasilis

O que estará se passando dentro da cabeça daquele que é conhecido por Ferreira Gullar? Pergunto-me. Pergunto-me, mesmo tendo consciência de que o poeta Ferreira Gullar e o homem José Ribamar Ferreira são "entidades distintas". 

Contudo, não há como negar o vínculo entre o artista e o homem [ainda que ele, o homem, lance mão de recursos escamoteadores, como fez o grande poeta português Fernando Pessoa com seus heterônimos [1], ao produzir sua obra.]. Todo trabalho artístico emana de um ser histórico e de sua visão sobre a realidade que o cerca como uma fera a ameaçá-lo. Quiçá, uma esfinge a desafiar: "Decifra-me ou devoro-te".  

O artista [poeta, escritor, pintor, escultor, músico, mímico etc] debasta ou desbasta [2] o real, ora se insurgindo contra ele [não necessariamente, a partir do "engajamento" sartreano], ora se aliando e avalizando a inércia [aqui me refiro ao artista que, com seu fazer artístico, diz o dito, sem nada acrescentar... Isso pode soar subjetivo... E é! Não me furto a admitir, nem a tomar esta posição.].

Sofro pelo poeta por quem tenho profunda admiração. Sofro pelo poeta de Poema Sujo [3], de A Luta Corporal e Novos Poemas, de Dentro da Noite Veloz, de Crime na Flora, de Na Vertigem do Dia. Do fenomenal Traduzir-se...[4]! Mas, sobretudo, encho-me de indignação com o homem que tem feito variadas e rancorosas declarações contra Lula e seu governo. A mais recente delas encontra-se publicada na Folha de São Paulo de hoje [Leia artigo abaixo e comentários do editor-geral do Terra Brasilis].

E o que se lê?

Uma crítica cuja tônica é uma visão tosca, míope. Uma crítica eivada por um esquadrinhamento enviesado acerca das conquistas do governo que, se não foi perfeito [nenhum governo será... Até segunda ordem.], ao menos erigiu a desconstrução das relações sociais em que uma elite mesquinha e nefasta ditava as regras [José Ribamar Ferreira parece ter se aliado a ela]. Elite esta que se locupletva, exclusivamente, com as benesses de e para um estrato arrogante da sociedade. Digo, ainda: o Governo Lula desconstruiu o que estava estampado na testa dessa elite infame que pensava ser a única camada social a ter o direito de urinar guaraná e de defecar bolo de chocolate.

Alguém, em clara referência ao drama familiar por que passa o sr. José Ribamar Ferreira [5], publicou que era o caso de diagnosticar e prescrever algum medicamento para ele. Embora tenha criticado - em artigo - a Lei da Saúde Mental [6], não posso compactuar com a sutil sugestão de que o sr. José Ribamar Ferreira esteja acometido de esquizofrenia, porquanto debilita o debate e avilta a pessoa e a dor que ela sente ao ter de internar um filho. Antes me interessa entender por que o governo Lula é vítima de um discurso vindo de alguém que tanto lutou por reformas para o Brasil deixar de ser um país de injustiças. Confesso que ainda estou matutando...

Ademais, entre Ferreira Gullar [o poeta] e José Ribamar Ferreira [o homem], mantenho o respeito pelo primeiro. Quanto ao segundo...

Quando dois e dois são quatro


O tempo se encarregará de pôr as coisas no lugar. O presidente Médici também obteve 82% de aprovação


TALVEZ SEJA esta a última vez que escreva sobre o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil. Com alívio o vi terminar o seu mandato, [A imensa maioria do povo brasileiro tem uma leitura diferente. Gullar está vivendo em que país?] pois não terei mais que aturá-lo a esbravejar, dia e noite, na televisão, nem que ouvir coisas como esta: "Ele é tão inteligente que fala todas as línguas sem ter aprendido nenhuma". Pois é, pena que não fale tão bem português quanto fala russo. [A mordacidade aqui é desprezível e parece, por um lado, negar a atuação de Gullar no CPC; e, por outro, parece desnudar um sujeito elitista linguisticamente e avesso ao reconhecimento de uma variação de linguagem que não seja a dita padrão. Ainda: como se "falar bonito", em conformidade com a norma padrão da língua, fosse a chave para ser bom governante... Diz aí FHC...!]
 
É verdade que tivemos, ainda, que aturá-lo nos três últimos dias do mandato, quando "inaugurou" obras inexistentes e fez tudo para ofuscar a presidente que chegava.
 
Depois de passar a faixa, foi para um comício em São Bernardo, onde, até as 23h, continuava berrando [Este berro é o berro de um povo oprimido por séculos de dominação e injustiças sociais que o sr., Gullar, presenciou e atuou para exterminá-las. Esquece-se disso?] no palanque, do qual nunca saíra desde 2002.
 
Aproveitou as últimas chances para exibir toda a sua pobreza intelectual, [Gullar, sua pobreza de espírito assusta. Que tal refletir sobre o intelectualismo idiota de certos governantes anteriores a Lula? Diz aí FHC...!] dizendo-se feliz por deixar o governo no momento em que os Estados Unidos, a Europa e o Japão estão em crise.
 
Alguém precisa alertá-lo para o fato de que a crise, naqueles países, atinge, sobretudo, os trabalhadores. Destituído de senso crítico, atribui a si mesmo ("um torneiro mecânico") o mérito de ter evitado que a crise atingisse o Brasil. Sabe que é mentira mas o diz porque confia no que a maioria da população, desinformada, acreditará. [Ainda que haja desinformação no seio das camadas populares, isso está mudando com a Blogosfera alternativa à mídia golpista da qual o sr., Gullar, se serve para publicar seus artigos e falar as besteiras que fala como se dono da verdade fosse. E acha-se um intelectual, ora...]
 
Isso dá para entender, mas e aqueles que, sem viverem do Bolsa Família nem do empréstimo consignado, veem nele um estadista exemplar, que mudou o Brasil? É incontestável que, durante o seu governo, a economia se expandiu e muita gente pobre melhorou de vida. Mas foi apenas porque ele o quis, ou também porque as condições econômicas o permitiram?
 
Vamos aos fatos: até a criação do Plano Real, a economia brasileira sofria de inflação crônica, que consumia os salários. Qual foi a atitude de Lula ante o Plano Real? Combateu-o ferozmente, afirmando que se tratava de uma medida eleitoreira para durar três meses.
 
À outra medida, que veio consolidar o equilíbrio de nossa economia, a Lei de Responsabilidade Fiscal, Lula e seu partido se opuseram radicalmente, a ponto de entrarem com uma ação no Supremo para revogá-la. Do mesmo modo, Lula se opôs à política de juros do Banco Central e ao superávit primário, providências que complementaram o combate à inflação e garantiram o equilíbrio econômico. [Interessante como há um golpe intelectualoide aqui. Lula e o PT se opuseram, sim, a tais medidas. Entretanto, Lula por compreender que se equivocara fez sua revisão e, a partir das tais medidas, fez com que o Brasil fosse construído para os brasileiros... Isso não ocorria em governos anteriores. Diz aí FHC...!.]. Essas medidas, sim, mudaram o Brasil, preservando o valor do salário e conquistando a confiança internacional.[Mudaram o Brasil por que havia alguém lá, o Lula, que entendeu ser necessário transferir os benefícios para a camada da população sofrida. Fosse FHC e os tucanos... Sem comentários.].
 
Lembro-me do tempo em que o preço do pão e do leite subia de três em três dias. Quem tinha grana, aplicava-a no overnight e enriquecia; quem vivia de salário comia menos a cada semana.
 
Se dependesse de Lula e seu partido, nenhuma daquelas medidas teria sido aplicada, e o Brasil - que ele viria a presidir - seria o da inflação galopante e do desequilíbrio financeiro. Teria, então, achado fácil governar? [O intelectual Ferreira Gullar entoa a cantilena das carpideiras. Isso é lastimável para quem se apresenta como integrante da intelligentsia brasileira.]
 
Após três tentativas frustradas de eleger-se presidente, abandonou o discurso radical e virou Lulinha paz e amor. Ao deixar o governo, com mais de 80% de aprovação, afirmou que "é fácil governar o Brasil, basta fazer o óbvio". Claro, quem encontra a comida pronta e a mesa posta, é só sentar-se e comer o almoço que os outros prepararam.
 
A verdade é que Lula não introduziu nenhuma reforma na estrutura econômica e social do país, mas teve o bom senso de dar prosseguimento ao que os governos anteriores implantaram. A melhoria da sociedade é um processo longo, nenhum governo faz tudo. Inteligente, mas avesso aos estudos, valeu-se de sua sagacidade, já que é impossível conhecer a fundo os problemas de um país sem ler um livro; quem os conhece apenas por ouvir dizer não pode governar.
 
Por isso acho que quem governou foi sua equipe técnica, não ele, que raramente parava em Brasília. Atuou como líder político, não como governante, e, se Dilma fizer certas mudanças, pouco lhe importará, pois nem sabe ao certo do que se trata. Para fugir a perguntas embaraçosas, jamais deu uma entrevista coletiva. Afinal, ninguém, honestamente, acredita que com programas assistencialistas e aumento do salário mínimo se muda o Brasil. [Certamente não, sr. Gullar. E muito menos com visões mesquinhas e distorcidas como as suas.]
 
O tempo se encarregará de pôr as coisas em seu devido lugar. O presidente Emílio Garrastazu Médici também obteve, em 1974, 82% de aprovação. [Aqui, o cúmulo da comparação ou a reafirmação da DITABRANDA. Médici obteve aprovação a título de quê? Quem mediu tal popularidade? Os que estavam sendo torturados nos porões da ditadura? Os que foram obrigados ao exílio? O sr., Gullar, correu risco na era Médici e partiu para o exílio: Moscou, Santiago, Lima. O sr., Gullar, votou - quando esteve fora do Brasil - para que Emílio Garrastazu Médici alcançasse a pseudoaprovação de 82%? Bom saber...] [Folha de São Paulo]

[1] Para ler um artigo do editor-geral sobre Fernando Pessoa [ortônimo] e Álvaro de Campos [heterônimo], clique AQUI.
[2] Seleção vocabular especial para o grande poeta e irmão na lida Luiz Eurico, carinhosamente chamado de "Lula".
[3] Assista ao vídeo e ouça AQUI.
[4] Assista ao vídeo e ouça AQUI ou AQUI [com Fagner]
[5] Leia AQUI.
[6] Leia AQUI.

6 comentários:

Giovani de Morais e Silva disse...

Excelente post!

Sonia/ABC! disse...

Ótimo artigo, descontruindo essa argumentação canalha de um poeta canalha... Ou seria um canalha poeta a esta altura da vida? Desculpem!... Já li e curti muito Ferreira Gullar, nos anos 70, 80... Mas agora o poeta e intelectual tomou uma overdose de canalhice! No seu intelecto mesquinho, que já foi grande, ele julga estar defenestrando Lula. O que Gullar faz é emporcalhar sua própria biografia, sua história de vida. Ele devia se espelhar em Darcy Ribeiro, Niemeyer... e parar de vomitar asneiras como essa, de comparar Lula com Médici!...

afernando disse...

Ferreira Gullar (Quando Dois e Dois são Cinco), há que pensar como os poetas, não como professor e tampouco como jurista. Ferreira Gullar será admirável até a morte, embora gire o mundo e com o passar dos anos boa parte da rebeldia da juventude ceda lugar ao conservadorismo da maturidade. O Gullar, do "Poema Sujo" de 1976, foi o maior poeta brasileiro. É verdade, hoje a ficha já lhe custa a cair. Como entender do que é capaz a idade em alguém que até pouco tempo "saía do sono como de uma batalha travada em lugar algum" e agora tem tanta dificuldade em entender como se chega à presidência sem primeiro bater ponto como vereador? Entre um e outro há uma distância imensa, mas aposto que Gullar ainda irá perceber. Claro está que esse 'script' inusitado nunca irá rimar com esses versos de "Dentro da Noite Veloz". Mas Gullar é um intelectual admirável, um sábio ainda que na penumbra. Não importa se ele já esteja beirando os 90, recursos tem de sobra para uma providencial "reciclagem" que ainda o fará escrever poemas sobre a saga de um operário torneiro-mecânico, numa empreitada de adolescente coroada com a mãozinha de sua formação marxista: "Zonzo lavo na pia os olhos donde ainda escorre uns restos de trevas", voltaria ele a escrever depois desse novo despertar. Só então perceberá que a d. Dilma, parida dos versos do poeta, não lhe causa mais surpresas, será a mulher-presidenta dos seus poemas de uma nova era.

DiAfonso disse...

Cumpadi Giovani,

obrigado pelo comentário.

Cumadi Sônia,

Sigo considerando Ferreira Gullar como um dos grandes poetas nacionais. Esta admiração não cessará. Quanto ao intelectual... Não sei o que se passa na cabeça dele.

DiAfonso disse...

Caro afernando, boa noite.

Obrigado por oportunizar-me a leitura de um excelente comentário.

Faço, apenas,uma observaçãozinha - sem demérito para o que você escreveu de forma hábil: O poeta de "Poema Sujo" e de "Dentro da noite veloz" não foi o maior poeta. É um grande poeta.

Grande abraço!

Eurico disse...

Sofrível, a argumentação do poeta.
Perdeu uma boa oportunidade de ficar calado...
Fica difícil de entender o que se passa com a cabeça de um poeta que não só envelhece, como também se envilece.
Discordar do Lula é direito de qualquer um. Mas usar os argumentos da mais preconceituosa corrente da sociedade... afff Nem a andropausa justica essa face senil e decadente do poeta.

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