Nesta semana sofri uma sequência de emboscadas em São Paulo. Os ataques escancararam quase todas as fragilidades que carrego como cidadão comum e o abandono crônico ao qual sou submetido pelas administrações estadual e municipal. Só faltou precisar de algum socorro médico do estado ou enfrentar os recordes mundiais de congestionamento típicos de um final de tarde chuvoso em São Paulo. Mas minha saúde física vai bem e quanto ao trânsito, não passo de um espectador da insanidade dos que andam por esta cidade carregando um automóvel nas costas.
Primeiro foi a Telefonica – que nos trata como otários colonizados. Campeã de reclamações no Procon, somou 7 dias suprimindo-me a conexão – dita banda larga – com justificativas pra boi dormir. Claro que, durante este período, foram vários pedidos de reparo feitos ao odiável sistema de gravações, suas instruções que nos tratam como débeis mentais e seu idiota reconhecimento da fala. Esta empresa, que é considerada a pior em telefonia do planeta (pergunte a qualquer estrangeiro sobre a fama da Telefonica mundo afora), só tem a ousadia de cobrar seus preços abusivos em São Paulo porque fez um negócio da China, ops – de outro mundo – com o governo do PSDB, quando recebeu a concessão para operar a telefonia fixa e a banda larga – que nem é banda, nem larga, aliás. Pelo que eu soube, a malandragem destes inescrupulosos capitalistas multinacionais é dividir o mesmo sinal em vários usuários sem que eles saibam porque pagam banda larga de 2 megas e recebem 200k no máximo. E o pior: nós assinamos a permissão para que nos forneçam apenas 10% do serviço contratado. Por que chamam 200k de banda larga? Como o PROCON, o INMETRO, ANATEL etc, nos fazem engolir isso? Os japoneses, que pagam preços quase simbólicos por uma banda larga autentica, devem nos achar pitorescos – pra dizer o mínimo – já que nos conformarmos com este estelionato legalizado.
A Telefonica não existe, fisicamente, para seus clientes brasileiros. Não passa de algumas centenas de planilhas de um banco de dados, uma coleção de gravações vertidas para a língua portuguesa, uma empresa de telemarketing de fundo de quintal e uma empresa de técnicos que fazem o atendimento presencial quando é o caso. Para arrecadar o maior lucro possível a ser remetido para a sua matriz, os empresários espanhóis calcularam que é mais vantajoso terceirizar os serviços – pagando salários de fome e por isso mesmo, contratando os profissionais menos qualificados que existem no mercado – a manter uma estrutura física convencional em São Paulo.
Durante a medíocre gestão FHC, a Telefonica comprou a paulista Telesp a preço de banana – numa daquelas dezenas de transações obscuras, de leilões com cartas marcadas. Processos mais conhecidos pelo codinome “privatização” (ou, se preferirem, enxugamento das responsabilidades governamentais de tucano embusteiro, ou, se preferirem, neoliberalismo, ou, se preferirem, venda do patrimônio brasileiro, ou se preferirem, chamem como quiserem). E o paulistano – que se acha europeu – aplaude quando Serra diz que, não fossem as privatizações, não faríamos a menor idéia do que é um celular e o acesso à Internet se daria no orelhão da esquina. É o mesmo que afirmar que, não fosse Charles Miller trazer ao Brasil a primeira bola de futebol, em 1900, estaríamos usando bolas de meia até hoje! Ave Telefonica, ave!
Contornei parcialmente o problema da conexão usando os serviços de uma lan house para o intercâmbio de arquivos com meu cliente. Mas eis que vieram outros golpes que terminaram por derrubar totalmente minha frágil estrutura: durante a chuva, várias quedas de energia seguidas acabaram por queimar meu aparelho telefônico, o modem e danificar seriamente o HD do meu Mac. O dano só não foi pior porque tenho um backup de todos os arquivos. Em seguida, veio o tiro de misericórdia: um apagão que durou 10 horas na minha região. Tudo isso somado, quase me reduziu a um vegetal (eu sei, eu sei, quanta dependência…). Alkmin fez que não era com ele e transferiu a responsabilidade para – tsk! – as árvores e seus “comparsas” da Eletropaulo! Diante destes predadores – governo trapaceiro que finge não saber que investir em infraestrutura e prevenção é sua obrigação e a multinacional trambiqueira que nos vende gato por lebre – o que me salvou da completa morte cerebral foi uma simples, singela e primitiva… vela! E sua luz natural remeteu-me a outra simples, singela e primitiva prática: ler coisas gravadas com tinta sobre papel. Simples assim! (Aliás, não deixem de ver o vídeo, aí na coluna ao lado, chamado “Book”)
No dia seguinte, a TV escancarava enchentes e suas tragédias espalhadas na capital paulista. Para a imprensa local, os alagamentos não são resultado da falta de manutenção, falta de limpeza dos rios e bueiros, falta de recolhimento do lixo. Serra, Alkmin e Kassab sabem das coisas: é Deus e a mãe natureza fazendo-nos pagar os pecados.
Ainda na TV, vi a moça que foi estuprada e morta por um psicopata que já foi “beneficiado” pelo tal regime semi-aberto. Nessas horas, quando vejo este tipo de crime hediondo, chego a pensar, quase desejar, que aconteça com a filha de algum político graúdo ou ministro do judiciário. Quem sabe assim, resolvam encarar essa “carinhosa” legislação penal brasileira e fazê-la mais severa para que haja alguma punidade enfim.
Racionalizando aqui com meus botões: somos reféns da ausência dos governos do estado e município. Em São Paulo, vale a máxima de Macunaíma, versão demotucana: cada um por si e os governos do PSDB/DEM contra todos. Meus botões ainda suspiram: isso tudo que me aconteceu é coceguinha se comparado com os problemas dos moradores da Zona Leste. E não adianta Kassab mudar de partido, fazer plástica ou usar uma fantasia de fada madrinha. Não vai se livrar do DNA de ser o poste que Serra cravou no coração desta cidade.

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