sexta-feira, 25 de março de 2011

Um papo com José de Abreu sobre a Lei Rouanet

No último domingo, tive uma conversa pelo twitter com o consagrado ator José de Abreu, 45 anos de militância política. Conheci-o virtualmente pelo twitter, há praticamente um ano, quando ele ainda usava o pseudônimo @marcosovos e militava combativamente pela eleição de Dilma e na defesa do ex-presidente Lula, constantemente atacado pela velha mídia. Pessoalmente, sou fã do seu trabalho artístico pelo menos desde 1985, ano em que interpretou Juvenal Terra com fantástico elenco na inesquecível minissérie “O tempo e o vento” que considero uma das melhores, senão a melhor produção da TV brasileira de todos os tempos.

O que motivou o debate de domingo foi um comentário que fiz criticando André Noblat pela resposta dele aos críticos. A resposta de André foi publicada no blog do seu pai, o jornalista Ricardo Noblat. Alguns blogs haviam divulgado que sua banda recebera autorização do Ministério da Cultura para captar algo em torno de 800 mil Reais, depois de o jornalista ter publicado vários posts criticando o ministério por autorizar Maria Bethânia a captar valor de aproximadamente 1,3 milhões de reais a fim de produzir e disponibilizar, em seu blog, vídeos musicais feitos especialmente para esse veículo.

Não censuro a captação da banda do André, mas considerei incoerente a resposta que deu, recriminando os blogs que expunham a hipocrisia do seu pai. Ele desancou os blogs, defendeu o pai e insinuou diferenças entre o seu caso e o de Bethânia. Entendi que, enquanto filiado ao PT e artista, deveria ter repreendido o pai pela tentativa de uso político do caso, porquanto o André Noblat também fazia uso da Lei Rouanet.

José de Abreu argumentou dizendo que é difícil a posição de André, afinal pai é pai, e nessas horas, o sangue fala mais alto. Disse ainda que o projeto do rapaz tem um fundo social, pois levava cultura de graça a quem não podia pagar e citou que também faz isso, doando centenas de ingressos de peças  de que participa, aproveitando as viagens para fazer palestras e bate-papos com estudantes secundaristas. Além disso, quando o teatro permite, ele disponibiliza ingressos a preços populares [R$ 20,00 a R$ 30,00], com meia-entrada para estudantes [R$ 10,00 e R$ 15,00], e a imprensa, que faz um escarcéu manipulando dados de captação como a de Maria Bethânia, não valoriza essas ações. Ao contrário, veem isso como desvalorização do espetáculo e do artista, que ainda precisa brigar com o produtor cultural e com o teatro que preferem preços excludentes.

Em relação à dificuldade de captação de recursos através da Lei Rouanet, ele afirmou que era quase impossível, pois muitos empresários não entendem que, além da renúncia fiscal, ainda recebem retorno através da publicidade do evento. Questionei se ele entendia que o empresário preferia sonegar o imposto a ceder recursos para a cultura. Disse-me que a grande maioria não conhece a lei, outros sabem, mas não valorizam, enquanto alguns têm medo de ficarem expostos ao rigor da Receita Federal. Poucos são os que hoje investem em cultura no Brasil e, ainda segundo José de Abreu, o artista tem que trilhar uma espécie de via crúcis atrás de recursos para produzir seus espetáculos, humilhando-se de porta em porta, sem contar com os chás de cadeira que toma de alguns empresários insensíveis.

Perguntei-lhe se a nossa conversa poderia virar um post e ele não só me autorizou, como também me permitiu que solicitasse mais detalhes via e-mail. Não titubeei e elaborei oito perguntas que lhe enviei com a intenção de enriquecer mais o artigo. Mesmo com todos os seus compromissos profissionais, respondeu-me gentilmente o que se segue:

Ponto & Contraponto: A militância política começou quando? 
José de Abreu: 1966, quando entrei na Fac de Direito da PUC-SP. Quem não era de esquerda não arrumava namorada. [risos] 
Ponto & Contraponto: Por que no início do twitter você resolveu usar pseudônimos como @marcosovos? Para se sentir como um militante comum?
José de Abreu: Por causa da lei eleitoral que impede quem está no ar de fazer campanha.
Ponto & Contraponto: A Lei Rouanet precisa de mudanças? Se sim, quais?
 José de Abreu: São muitas, mas o que foi mais discutido no governo Lula foi a participação das empresas com um porcentual de dinheiro próprio e a divisão mais equitativa do incentivo pelas regiões do Brasil.
Ponto & Contraponto: O que o governo poderia fazer para ajudar os artistas a não terem que passar humilhação na busca de captação de recursos para produção artística?
José de Abreu: Editais de Patrocínio são os mais democráticos e independem de contato pessoal. O Governo Lula conseguiu implementá-los nas estatais mais importantes como Petrobras, Eletrobrás, CEF.
Ponto & Contraponto: Como você vê o caso do Blog da Bethânia? E do André Noblat? Houve radicalização ou as críticas estão sendo exclusivamente construtivas?
José de Abreu: Pura infantilidade. O uso da palavra “blog” é que levantou a grita. Se fosse um filme ou vídeo ninguém iria estranhar, mas Blog todo mundo faz de graça, até meu filho de 10 anos fez um. O projeto do petista Andre é muito bonito. Ambos foram aprovados por uma comissão independente.
Ponto & Contraponto: Ainda sobre o caso do Blog da Betânia, você vê essas ações como uma forma de atingir a ministra Ana de Hollanda? É fogo amigo?
José de Abreu: Tudo misturado, “se ela tem por que eu não posso ter” é um pensamento recorrente nessas horas. E atingir a Ana foi ignorância porque o projeto entrou no MinC no governo Lula.
Ponto & Contraponto: Você pode dar uma resposta a quem associa levianamente a sua militância política à possibilidade de estar próximo ao poder?
José de Abreu: Len, você quer dizer ministério? Estou próximo do poder pela minha militância, ué. Uma coisa corre junto com a outra. Seja qual for o governo, sendo de esquerda eu vou estar próximo porque tenho muitos amigos na política... Mas você não vai me ver ministro. Dilma é uma pessoa séria, jamais me convidaria. [risos]
Ponto & Contraponto: Você guarda alguma semelhança com o personagem Milton que interpreta atualmente na novela Insensato Coração ou ele é uma antítese do José de Abreu?
José de Abreu: A única semelhança é que ambos queremos fazer cultura e levamos NÃO toda hora quando buscamos parceiros na empreitada.
A pergunta sobre proximidade do poder foi proposital, já que o artista é vitima de leviandade de quem pretende desqualificar sua militância política. Provocando-o, consegui uma resposta para esse tipo de comportamento que considero desleal.

Agradeço a gentileza de José de Abreu por disponibilizar seu tempo para responder às nossas perguntas e, também, por ceder fotos do seu arquivo pessoal a fim de ilustrar o post.

Abaixo, segue um trecho da minissérie “O tempo e o vento” em que ele contracena com Tarcísio Meira, Mário Lago, Heloísa Mafalda, Louise Cardoso e grande elenco.




Fonte da imagem ilustrativa: Arquivo pessoal de José de Abreu.
Revisão Final: Diafonso

Por LEN [editor-geral do Ponto & Contraponto]

3 comentários:

DoLaDoDeLá disse...

Excelente! E bem mais rápido de carrega agora. Abraço, Marco.

DiAfonso disse...

Olá, Cumpadi Marco Aurélio!

Fiz a configuração que você sugeriu. Se melhorou, então, graças!

Obrigado, cumpadi!

Grande abraço!

Marcilio Einstein disse...

Estes artustas brasileiros são uns pulhas, pois pegam dinheiro via renúncia fiscal da lei Rouanet, ou seja usam o dinheiro público para produzzir seus espetáculos e ainda cobram preços extorsivos nos shows, perguntem a Caetano veloso que el é expert no uso desses recuroos, e outros mais!

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