quarta-feira, 27 de março de 2013

Diplomata estadunidense é acusado de participar de sessões de tortura no Dops

Estratégias de dissimulação


Por Mário Augusto Jakobskind


É muito grave a denúncia do ex-deputado Ricardo Zarattini de que Richard Melton participou de interrogatório em uma dependência do Departamento de Ordem Política e Social, o famigerado Dops, no ano de 1969. O diplomata estadunidense veio a ser designado em 1989 embaixador no Brasil e ficou no cargo até 1993.

A Comissão Nacional da Verdade está encarregada de investigar a fundo a denúncia, de antemão minimizada pela diplomacia estadunidense, fato comum de acontecer toda vez que as autoridades de Washington são acusadas de dar respaldo a governos que praticam terrorismo institucional.

O mesmo tipo de acusação colocou a Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP) sob suspeita. Na época da ditadura já se denunciava a participação norte-americana e de empresários financiadores da repressão em interrogatórios.

O professor Luis Alberto Moniz Bandeira, preso nas dependências do Cenimar (Centro de Informação da Marinha) nos anos 60 garante que, quando estava lá, pôde constatar a presença de pessoas, possivelmente militares, que falavam com sotaque identificando o país de origem, ou seja, os Estados Unidos. Moniz Bandeira posteriormente confirmou através de outros oficiais da Marinha a presença dos agentes norte-americanos. Pode ajudar a Comissão da Verdade a investigar tais fatos.

Nos dias de hoje com a divulgação de informações dando conta da ação de empresários e diplomtatas estadunidenses em locais onde prisioneiros políticos eram torturados, procura-se analisar essa participação como atos isolados de indvíduos. A Fiesp recentemente avaliou, sem confirmar ou desmentir a participação de seus associados, que a entidade não compactuava com o esquema da repressão e que se houve alguma participação não era oficial.

Trata-se de uma balela, pois é pública e notória hoje a informação segundo a qual grupos de empresários vinculados à Fiesp financiaram a repressão como, por exemplo, a Operação Bandeirantes e assim sucessivamente.

Para passar o Brasil a limpo é necessário conhecer com detalhes o que se passou por aqui a partir de 1964. Ainda faltam muitas informações que circulam desde a época da ditadura.

Nesse contexto, é preciso investigar a fundo o lobie de extrema direita que resultou no assassinato do jornalista Vladimir Herzog. Na Assembbliea Legislativa de São Paulo agia o então deputado Jose Maria Marin, que, em um de seus discursos, em outubro de 1975, poucos dias antes do assassinato do jornalista exortava as autoridades a tomarem providências contra o que “estava acontecendo na TV Cultura de São Paulo”.

Marin negou culpa no cartório, mas em sua negativa em nota oficial no site da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) citou o próprio discurso, que é comprometedor. E ainda tem um agravante, Marin elogiava o delegado Sergio Fleury, o agente do Estado brasileiro que cometeu uma série de violações dos direitos humanos e acabou morrendo, possivelmente como queima de arquivo da extrema direita civil e militar, por temor de outros agentes de que em algum momento pudesse incriminar figuras notórias.

O esquema de ocultamento de responsabildades do que foi feito de alguma forma segue a mesma linha do que acontece em outras instâncias, seja na área econômica ou política institucional. Ou seja, o discurso é de uma forma, enquanto a prática é distinta e varia de acordo com as necessidades do momento.

Na política internacional, a recente visita do Presidente Barak Obama a Israel e poucas horas em território palestino de alguma forma remete a esse esquema de dissimulação. Mais uma vez Obama defendeu a criação do Estado Palestino, mas na prática não adotou nenhuma resolução que obrigue o governo extremista de direita de Israel a mudar a forma de agir na região.

O presidente estadunidense teria força suficiente para agir visando o enquadramento de Israel.

Tanto assim que depois de muitas recusas, o governo de Israel pediu desculpas à Turquia, aliada dos EUA, por ter matado cidadãos turcos em uma flotilha que tentava furar o bloqueio imposto à Faixa de Gaza.

Agora, não adianta apenas condenar verbalmente a continuidade da construção de assentamentos em áreas palestinas ocupadas. Por que não encostar na parede o primeiro ministro Benyamin Netanyahu (já conhecido com primeiro sinistro), exigir a suspensão e o desmantelamento imediato das construções? Com isso se removeria um dos entraves para a retomada das conversações palestino israelenses e a criação finalmente do Estado palestino em terras que não sofressem solução de continuidade.

Por essas e muitas outras, depois de tantos anos de idas e vindas e total impunidade por parte dos governos de Israel, os tempos atuais exigem mais do que discursos dos Estados Unidos. Se é que os ocupantes da Casa Branca estão mesmo a fim de apoiar a criação de um Estado Palestino.

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