domingo, 14 de agosto de 2011

Os princípios (e fins) editoriais


Um grande jornal do Rio fez publicar,  recentemente, os princípios editoriais da empresa a que pertence.  Um tratado sobre o óbvio. Ou, se quiserem, a  redescoberta da roda... Qualquer jornalista sério terá aprendido, por exemplo, nos bancos universitários ou na experiência vivida, que “isenção”, “correção” e “agilidade”  são “atributos de informação de qualidade”.  Ou será que, no plano teórico, alguém é capaz de explicitar como virtudes  da informação a parcialidade, a incorreção e o atraso na veiculação da notícia?

O documento segue essa linha da obviedade e acaba constituindo, por isso mesmo, um convite a reflexões. O que terá levado à explicitação desses postulados?  Arrisco a suposição de que, por trás da iniciativa, pode estar uma certa  perda de espaço da grande mídia   na credibilidade pública, fruto da presença crescente de opções midiáticas alternativas que, sem os compromissos dos órgãos hegemônicos,  estabelecem  diariamente um contraponto para os leitores também crescentes,  com conteúdos mais  profundos e  esclarecedores. Mas penso também que a motivação pode ser um certo  temor de que se venham a efetivar, no Brasil,  algumas medidas controladoras da responsabilidade  dos órgãos majoritários.  

De qualquer forma, o documento – tenha as finalidades que tiver, até  mesmo a de querer convencer os leitores  de que a prática dessa empresa jornalística atende àqueles princípios teóricos – acaba sendo, em alguns pontos,  um excelente exemplo de confirmação do dito popular do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, extensivo à toda grande imprensa.

Logo no início do texto, discursa-se sobre o direito ao contraditório que “deve ser sempre acolhido” e afirma-se que “todos os diretamente envolvidos no assunto têm direito à sua versão sobre os fatos, expressão de seus pontos de vista ou a dar as explicações que considerar convenientes”. Perfeito. Mas, para ficar em um único episódio, quando essa mídia denunciou o “descalabro” que era o Ministério de Educação deixar sair um livro didático que “estimulava o erro gramatical”, só me lembro de umas poucas linhas, ou talvez uns parcos minutos, em que a pobre professora , então acusada do que não fez, apresentou suas razões.  Em contrapartida, recordo-me de muitos programas com “especialistas” sobre o assunto, que disseram, aliás, barbaridades que um verdadeiro especialista  não diria. E hoje, passados poucos meses do episódio, convenientemente esquecido em função das numerosas manifestações de rejeição àquela abordagem tecnicamente errada e descontextualizada, não tomei conhecimento de que a professora tenha sido procurada por quem quer que seja  para, ao menos, desculpar-se do mal que lhe causaram.

Uma outra “cláusula” do documento nos informa que os jornalistas  não podem se engajar em campanhas políticas. A “norma” fala em “anunciar publicamente apoio ou usar adereços que os vinculem a partidos”. E precisa?  Os jornalistas  têm esse engajamento garantido de outra forma, através da própria linha editorial do órgão a que pertencem e da pauta  que encaminha essa linha. E, mesmo nos momentos eleitorais, tem-se passado sutilmente por cima das determinações da justiça eleitoral, para fazer proselitismo político.   Quem não se lembra daquela noite em que, às vésperas da última eleição presidencial, dedicou-se  quase todo o  espaço de um jornal noticioso a uma reportagem “investigativa” que pretendia provar que gato é lebre, ou seja, que uma bolinha de papel é um perigoso e violento instrumento de agressão?... O Estadão, nas eleições, assumiu que tinha um candidato e ponto final. Não seria mais correta essa postura por parte de todos?

Em outro tópico, está dito  que nenhum veículo “fará uso de sensacionalismo, a deformação da realidade de modo a causar escândalo e explorar sentimentos e emoções com o objetivo de atrair uma audiência maior”. Divino princípio. Tudo o que desejamos. Deve ter sido o que norteou as reportagens, 24 horas no ar, dessa e  de outras empresas, sobre a invasão do complexo do Alemão ou sobre as mortes da escola de Realengo. Nenhum sensacionalismo, nenhuma exploração de sentimentos e emoções...

Reconhece o documento  que “cada veículo tem um público-alvo”, mas que, “todo público tem um alto poder de discernimento e entendimento e o menos culto dos homens é capaz de decidir o que é melhor para si”. Deve ser por isso que os canais abertos da TV brasileira sonegam, para a grande massa seguidora do Big Brother Brasil, da Fazenda,  do Zorra Total e outros do gênero, as informações mais elaboradas que, sobre um mesmo fato, oferecem aos esclarecidos espectadores dos canais fechados... 

Afirma-se, como outro princípio, que os veículos da empresa “têm um dever de lealdade com seus jornalistas, e tudo devem fazer para protegê-los em sua atividade, fornecer-lhes meios adequados de trabalho e ampará-los em disputas provocadas por reportagens que publicam”. Não sei se essa passagem pode ser avalizada, por exemplo,  pela ex-repórter Cristina Guimarães que, ao comentar a forma como foi conduzido pela  sua emissora o caso Tim Lopes, do qual participou, disse, em resumo, que, se dependesse da empresa, ela estaria morta. Ela está exagerando? Não posso julgar. Mas merecia resposta. Ou não?

É isso aí. O problema não é a grande mídia  agir como age, informando o que  interessa, do jeito que interessa. O mal é ela falar sozinha e os brasileiros não disporem, nesse âmbito,  de um contraponto sério para o contraditório. Esse é um segmento  que parece querer  assumir a posição de liderança política no país, sem submeter-se ao crivo popular. Mas, a julgar pela necessidade da publicação dos tais princípios – indiscutíveis na teoria mas nem sempre adequados à prática -, parece que alguma coisa não está dando certo... Felizmente...

Em tempo: Não cabe na extensão desta coluna, mas acabou de sair uma Nota Oficial da Aeronáutica que, questionando reportagens do “Fantástico” e do “Bom dia Brasil”, repudia-as, por apresentarem “falta de Correção” e “falta de Isenção”. É bom ler.

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