domingo, 9 de dezembro de 2012

A foto e o trote: a mídia no banco dos réus


Por JOÃO JOSÉ FORNI

Esta semana dois acontecimentos colocaram a ética jornalística sob escrutínio. Nos dois casos, o desenlace foi a morte. Um no metrô de Nova York. O outro acontecimento, num hospital de Londres, onde a princesa Kate estava internada. Nos dois fatos jornalísticos, pergunta-se até que ponto o furo de reportagem justificaria atitudes dos repórteres que podem ser questionadas, sob o ponto de vista da ética jornalística e do respeito à vida e à intimidade das pessoas.

A morte nos trilhos

A polícia de Nova York prendeu um suspeito de ter empurrado Ki-Suck Han na linha do metrô, segunda-feira. Han foi fotografado segundos antes de ser atropelado por um trem, pelo fotógrafo freelance R. Umar Abbasi, que vendeu a foto para o jornal New York Post. A publicação da foto na primeira página do jornal gerou milhares de manifestações, muitas delas críticas, e intensa repercussão nas redes sociais.

O fotógrafo viu a cena, como também viram outras pessoas na estação, mas ninguém interferiu ou tentou salvar a vítima de ser atropelado, ante a chegada de um trem em alta velocidade. Ele não teve mais do que 22 segundos para se decidir. Por que o fotógrafo continuou fotografando e não salvou Han? Tudo se deu em questão de segundos, de acordo com ele. Houve uma discussão rápida entre os dois homens; logo em seguida Han foi empurrado para a linha do metrô.

"Eles (quem critica) não estavam lá. Não têm ideia de quão rápido aconteceu. O que fica passando todo o tempo na minha cabeça é que o homem não gritou", disse Umar Abbasi. O acusado, Naeem Davis, 30 anos, que foi preso no dia seguinte, aparentemente teve um surto e empurrou o Sr. Han num gesto tresloucado. O assassino já teve passagens pela polícia e não conhecia a vítima.

John Long, da National Press Photographers Association, dos Estados Unidos, comentando a decisão do fotógrafo disse: "Eu não posso julgar a pessoa, porque não conheço todas as circunstâncias. Mas quanto ao que deveria ser seu dever naquela situação, ele é inequívoco. Se você se colocou em uma situação em que você pode ajudar, você está moralmente obrigado", diz ele. "A coisa certa a fazer teria sido colocar a câmera de lado e tentar tirar o cara para fora. Eu posso entender por que as pessoas estão chateadas. A missão como ser humano, diga-se de passagem, vale mais do que a missão como fotojornalista."

Durante a semana, vários artigos questionaram se o fotógrafo deveria ter posto a câmara de lado e salvado a vítima. Ele mesmo diz que fotografou várias vezes para chamar a atenção do condutor do trem. E que várias pessoas viram e nada fizeram, embora a imagem mostre uma plataforma quase deserta.

O dilema ético de Umar Abbasi foi muito parecido com o do fotógrafo Kevin Carter, vencedor do Prêmio Pulitzer, em 1993, com uma foto de uma criança faminta no Sudão. A foto, chocante, mostra a criança só pele e osso, agachada próxima às choupanas da aldeia, no interior do Sudão. Próximo a ela, à espreita, uma ave de rapina. A publicação da foto no New York Times, além de lhe render o prêmio, causou uma polêmica internacional sobre o que teria acontecido à criança, ante a iminência do ataque do abutre e sobre o que fez o fotógrafo. Karter se suicidou um ano depois, aos 33 anos, aparentemente por depressão, num ato atribuído à culpa sobre o que ele tinha testemunhado.

O dilema de Umar Abbasi talvez tenha sido o de não poder fazer nada pela rapidez e o choque dos acontecimentos. Mas de qualquer forma, fica a pergunta, até que ponto a missão de cobrir determinado fato pode ser colocada acima do dever ético e humano de prestar ajuda a quem está precisando? Quais os valores que alguém pesa diante de uma cena como a do metrô de Nova York?

Por que o jornal comprou a foto e a estampou na primeira página? Segundo Samantha Sharf, da revista Forbes, está claro que a intenção de publicar a foto foi mais para chocar do que para edificar. O jornal teve mais de 22 segundos para decidir, ao contrário do fotógrafo. A eterna dúvida que perseguirá o fotógrafo será sempre a de que ele, talvez, poderia ter salvo o atropelado. E a única imagem do acontecimento seria apenas as das câmeras da plataforma da estação. Que diferença isso faria para a sociedade americana?

Além da questão ética do jornalismo, a cena suscita também um debate sobre como o espectador de uma cena como aquela deveria agir num momento de crise. A propósito, ao contrário do que aconteceu com o trabalhador americano Ki-Suck Han, a criança do flagrante de Kevin Carter se salvou, segundo informes posteriores à morte do fotógrafo.

A tragédia da enfermeira

Em Londres, na terça-feira 4 a princesa Kate Middleton, mulher do príncipe William, foi internada no Hospital Rei Eduardo VII, com náuseas, decorrentes da gravidez. Dois radialistas australianos – Mel Greig e Michael Shristian – ligaram para o hospital e fingiram, imitando sotaque britânico, ser a rainha Elizabeth e o príncipe Charles, pedindo notícias de Kate. A ligação foi atendida pela enfermeira Jacintha Saldanha, às 5.30h, porque não havia telefonistas no horário. A seguir, passou a ligação para uma colega que deu as informações.

Qual não foi a surpresa dos radialistas, quando o trote deu certo, e a enfermeira passou a dar notícias de Kate como se fosse para os membros da família real. "Pensávamos que eles desligariam assim que ouvissem nossos sotaques terríveis", afirmaram os jornalistas em nota. A enfermeira informante caiu no trote e forneceu detalhes sobre o estado de saúde da princesa, como se fosse para a família, que acabaram divulgados pela rádio e tiveram repercussão internacional.

Descoberta o trote, o hospital divulgou nota bastante constrangido, informando que irá rever os protocolos de telefonia: "É um trote tolo que deploramos. Levamos a confidencialidade a sério". Nesse caso, diferentemente do episódio de Nova York, os jornalistas estão no papel deles. Tentar informações reservadas pelos meios disponíveis, principalmente sobre um assunto que galvanizava a mídia do Reino Unido, mas desde que respeitem certos princípios éticos e não prejudiquem terceiros. Quem deveria fazer a triagem dos telefonemas, para preservar informações confidenciais, realmente deveria ser o hospital. Mas é bastante questionável, do ponto de vista da ética jornalística, até que ponto um jornalista pode se passar por outra pessoa para obter informações. No jornalismo, nem sempre o fim justifica os meios.

O problema do trote teria sido superado, talvez com alguma advertência à enfermeira pelo descuido, não tivesse terminado em tragédia. Na sexta-feira 7, pela manhã, o corpo da enfermeira Jacintha Saldanha foi encontrado numa rua de Londres. O desenlace, que chocou a tradicional sociedade britânica, está sendo investigado como suspeita de suicídio. Jacintha trabalhava no hospital há quatro anos e era uma excelente profissional, segundo a direção. Nenhuma represália havia sido tomada contra ela, diz o hospital.

Tanto o Palácio de Buckingham, quanto a estação de rádio, na Austrália, divulgaram notas à imprensa, lamentando o trágico desfecho para o episódio. Os jornalistas foram afastados até a completa apuração dos fatos, embora a direção da rádio 2D FM, da Austrália, admita que eles não quebraram nenhuma lei. Segundo a direção, eles estão devastados com a morte da enfermeira, de 46 anos.

"Este é um caso trágico que não poderia ter sido previsto e nós estamos profundamente entristecidos. Eu acho que trotes telefônicos são uma ferramenta utilizada por rádios há muitas décadas, ao redor do mundo, e ninguém poderia ter previsto o que aconteceu", disse Rhys Holleran, diretor da rádio.

O hospital divulgou Nota com elogios à enfermeira.

2 comentários:

João Paulo Ferreira de Assis disse...

Prezado Professor Diógenes

Eu por dever de ofício, leio muitos livros, principalmente de História. Li recentemente um livro do Prof. Victor Paes de Barros Leonardi, Entre Árvores e Esquecimentos, que mostra como os jesuítas desestruturaram os indígenas. Eles criaram um abismo entre as crianças e seus pais, e entre essas mesmas crianças e a tribo. Montaram peças de teatro satíricas contra os pajés, depositários do conhecimento da tribo. E acabaram destruindo as próprias tribos e as próprias crianças.

O que a mídia faz é nada mais nada menos que copiar os jesuítas. A mídia faz o papel deles. O povo faz o papel das crianças e o PT dos pajés. Se não reagirmos conscientizando as pessoas nas praias, bares, supermercados, e outros locais públicos, o povo vai acabar elegendo os seus inimigos, como as crianças indígenas fizeram.
É preciso lembrarmos que a mídia é inimiga do PT porque teve interesses contrariados. O PT acabou com o monopólio dos livros didáticos e das verbas de publicidade. Precisamos lembrar que a refeição do empresário não é o grude do peão. Que não faz sentido votarmos em gente que não defende o interesse nacional.

Professor, isto é um ótimo tema de aula, não lhe parece?

Saudações, João Paulo Ferreira de Assis.

Diógenes Afonso disse...

Caro João Paulo,

Sem dúvida que, para uma aula, o tema é um prato cheio. Eu não conheço o livro a que faz referência, mas vou dar uma procurada.

A mídia golpista precisa ser, diuturnamente, desmascarada.

Grande abraço e grato pelo comentário e pela sugestão de leitura.

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