quarta-feira, 6 de abril de 2016

O duelo ao por de sol entre Moro e Lula: como o golpe começou a morrer.

Moro acreditou demais em si mesmo e desprezou Lula

Em que momento a onda pró-impeachment começou a refluir?  

Olhadas as coisas em retrospectiva, foi nos dias em que Moro colocou no ponto máximo sua perseguição a Lula, primeiro com o depoimento coercitivo e depois com a divulgação, pela Globo, dos grampos.  

Isso quer dizer o seguinte: involuntariamente, Moro contribuiu poderosamente para que a tentativa de golpe fosse perdendo força contra todas as expectativas de até pouco tempo atrás.  

Moro cometeu um pecado de superavaliação e um pecado de subavaliação. Provou não ser um bom observador.  

Ele superavaliou a si próprio e à Globo. Imaginou que a retaguarda da Globo lhe daria salvo conduto para cometer todo tipo de barbaridade.  

E ele subestimou Lula. Imaginou que poderia fazer o que quisesse com Lula sem que houvesse resposta da militância petista e, mais que ela, de todos os brasileiros incomodados com abusos policialescos na condução da Lava Jato.  

A Globo é menos do que Moro pensava ser. E Lula é mais.  Essa combinação explica o começo do fim do golpe.  

Moro não estava sozinho.  

O experimentado jornalista Elio Gaspari teve uma leitura ridícula das transcrições dos grampos. Disse que eles mostravam um Lula acuado, isolado dos petistas. Gaspari chegou a dizer que Lula gostava de pensar como seria o seu enterro, e teria tido ali um vislumbre. Claro que Gaspari estava falando do enterro de um perdedor.  

Como Moro, ele cometeu um monumental erro de avaliação.  

Se há um grande vencedor nestes últimos acontecimentos é exatamente Lula. A perseguição selvagem de Moro e da Globo como que despertou o que ele tem de melhor.  

É mais ou menos como aquele velho pistoleiro que está em seu canto, interessado em sossego, e a quem as circunstâncias forçam a pegar seus revólveres de novo, com a garra e a paixão dos velhos dias.  

Ou, na grande imagem do próprio Lula, é a jararaca que se sente espezinhada e reage.  Vozes insuspeitas se ergueram contra os exageros de Moro. O liberal, conservador Marco Aurélio Mello criticou duramente os métodos de Moro.  

Numa passagem memorável, ele reagiu assim à desculpa de Moro de que obrigara Lula a depor para protegê-lo. “Este tipo de proteção eu não quero para mim”, disse ele.  

Mitou.  

Numa frase, Mello desmoralizou a falácia cínica de Moro.  

A reação do velho pistoleiro, ou da jararaca, acabou incendiando o país com manifestações inflamadas contra o golpe. No calor delas, duas coisas ocorreram: uma é que o golpe se consagrou como golpe, ao contrário dos que queriam dar outro nome ao movimento golpista.  

A outra foi a diminuição de Moro. O super-herói ficou exposto como nunca estivera. Achou que podia voar e se esborrachou. O que parecia uma unanimidade – burra, catastrófica, mas unanimidade – se esfacelou.  

É crescente o sentimento entre os brasileiros não fanatizados pelo antipetismo da mídia de que a Lava Jato deu. Cansou. E Moro também.  

De forma simbólica, naqueles dias de depoimento forçado e grampos passados à Globo, travou-se um duelo entre Moro e Lula.  

E o velho pistoleiro sacou primeiro.

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