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domingo, 27 de março de 2016

Mino: será Moro da CIA?


Os russos sabem...

A perspicácia do Mino Carta é certeira.

Nesse vídeo postado no site da Carta Capital, ele resume brilhante artigo que publica na edição impressa da revista, onde se destaca, também, a entrevista do Ministro Aragão, que não deve deixar dúvida nesses delegados aecistas.

Mino lembra que estudaram nos Estados Unidos técnicas jurisdicionais para combater os petistas o Juiz Moro, os promotores Santos Lima – que foi horizontal no Banestado e é vertical na Lava Jato -, e aquele outro que opera no wi-fi de Deus, o Dallagnol, que quer baixar um AI-5 próprio, seu, exclusivo, para acabar com a corrupção do PT.

Claro, que para os hipócritas só interessa a do PT, porque na hora em que o Marcelo Odebrecht pegou o Aecím e o Padim Pade Cerra, aí, o Dallagnol reagiu, na hora: esse não pode delatar! Não vem ao caso!

O Conversa Afiada, modestamente, já tinha tratado desse “intercâmbio” do Juiz Moro com o Departamento de Estado americano.

O Conversa Afiada já tinha contado também fato de extrema gravidade.

Em conversa com um ministro russo da mesma pasta, um ministro brasileiro ouviu:

O serviço de Inteligência russo, como se sabe, é muito competente.

Onde a CIA vai, a Rússia vai atrás.

Os americanos foram para a tríplice fronteira Brasil, Paraguai, Argentina, atrás dos terroristas.

A Rússia foi atrás.

E já que estava em Foz do Iguaçu, começou a investigar as entranhas do Banestado.

E agora acompanha vivamente as entranhas da Lava Jato.

Caro amigo ministro brasileiro, isso não passa de uma operação da CIA para boicotar e arruinar o pré-sal brasileiro, antes de entrega-lo aos americanos.

O ministro brasileiro contou essa historia à Presidenta Dilma e não sabe o que se sucedeu depois disso.

Sobre a matéria, não deixar de ler o impressionante relato do grande brasileiro Guilherme Estrella, o homem que descobriu o futuro do Brasil

Esse Mino…

Paulo Henrique Amorim

sábado, 3 de agosto de 2013

Direita precisa desestabilizar a América Latina pois é minoria, diz Nils Castro

Escritor panamenho discorre sobre "contraofensiva" de grupos conservadores aos progressos sociais latino-americanos

Um dos grandes estudiosos dos movimentos sociais na América Latina, o escritor panamenho Nils Castro, afirmou que se preocupa com aquilo que classifica como "contraofensiva" de grupos conservadores aos dirigentes de esquerda latino-americanos. Processo que, segundo o intelectual, pode prejudicar os avanços sociais conquistados nos últimos anos. Em entrevista a Opera Mundi, o autor de As esquerdas latino-americanas em tempos de criar fala em "manobras de desestabilização da direita" no processo.

“Nem a direita nem o imperialismo vão ficar quietos frente ao progresso social e à ascensão social das pessoas. Não podemos esquecer  que eles ainda são fortes.  Tem a mídia, os meios, o dinheiro. Mas, como eles são minoria, eles precisam desestabilizar primeiro para fracionar o movimento popular que conquistou históricas reformas sociais na América Latina", argumentou.


Quando Castro fala em desestabilização, ele se refere à criação e promoção de crises que "criam um clima de insatisfação social que coloca a população contra os dirigentes progressistas". No entanto, perguntado se o Panamá funciona hoje como uma nova matriz de desestabilização da integração latino-americana, Castro descarta que o país possa influenciar ou agir com tal magnitude. Ele acredita, porém, que a esquerda no geral deve ficar atenta a um processo histórico que se "inicia com a desestabilização e culmina com deposições e golpes".

"Antes de invasão norte-americana ao Panáma que destruiu nosso processo de liberação nacional, nós sofremos com muita desestabilização financiada pela direita. Foi uma forma de ir quebrando as pernas do processo democrático nacional antes de dar o golpe final. Quando 20 mil soldados da melhor infantaria norte-americana desembarcaram em nosso país, a nossa luta já estava enfraquecida com desestabilizaão social e econômica. Esses movimentos foram só um prefácio de algo pior que vem depois, que é um golpe. Por isso é preciso ficar atento", argumenta sobre as ações conservadores na América Latina.

Durante participação no Foro de São Paulo, Nils Castro também defendeu que a "América Latina tem uma rica diversidade de processos nacionais e socioculturais que é preciso compreender e somá-los sem restringir as forças da pluralidade de seus integrantes", disse em referência  a toda a variedade de povo e culturas constantemente oprimidos no continente.

O escritor também falou da importância da juventude para a renovação da esquerda. "Escrevi meu livro para os jovens. Eles precisam conhecer o motivo da nossa luta, mas de uma forma que eles possam entender. Hoje escrevo como se quisesse que meus netos pudessem ler", disse.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

domingo, 7 de julho de 2013

Golpes na democracia [Ou... a barbárie anda a galope com alguns jovens, aqui no Brasil, montados nela...]


Por Rodolpho Motta Lima

O mundo, hoje, atravessa séria crise nos quesitos democracia, cidadania e ética, que deveriam constituir os pilares da formação dos indivíduos e, por extensão, dos povos. O que vemos, diariamente, são pequenos e grandes golpes que contra eles se cometem em todos os cantos do planeta, inclusive aqui. Vejamos:

O outono árabe 

Alguém mencionou o movimento que destituiu o presidente eleito do Egito como “a volta dos que não foram”. Perfeito. A classe média egípcia, instável, reticente e incoerente, foi às ruas para recolocar no poder os militares contra os quais ela se opunha anteriormente, e que, ao longo de tantos anos de ditadura, sustentaram a repressão. E ainda tem gente discutindo se houve um golpe, tendo em vista o “apoio popular”. Penso que o igualmente reticente presidente Obama – que agora se diz preocupado com o panorama egípcio - , ao afirmar, há poucos dias, que a democracia não passa necessariamente por eleições,  pode ter dado um empurrãozinho para o golpe de um exército que, ao longo dos anos, vem sendo apoiado pelos americanos com polpuda “ajuda econômica”. Como vemos, um show  de hipocrisia democrática... 

Arbítrio no espaço aéreo


Urariano Mota esgotou esse assunto aqui no DR, com a sensibilidade do grande escritor e a indignação do verdadeiro democrata. É incrível que o legítimo presidente de um país componente do concerto planetário das nações tenha tido o seu direito de utilização do espaço aéreo castrado por decisões arbitrárias, nas quais, uma vez mais, está presente a “democracia” tão decantada pelos americanófilos de plantão. Só mesmo em um mundo de governos emasculados e subservientes ao poderio militar dos EUA poderia ocorrer um episódio tão abominável. Fico aqui imaginando se esse intrépido pessoal saudoso do “Big Stick” teria coragem de agir assim com um avião da China...

Lobos que comem lobos


O bloqueio ao voo de Evo Morales buscava evitar um outro direito de ir e vir. Supunha-se que no avião estivesse Edward Snowden, americano tido como traidor pelo governo Obama, mas exaltado como homem de coragem por grande parte do mundo. É inestimável  a contribuição que esse cidadão está prestando à humanidade ao revelar essa espionagem planetária – uma trama que George Orwell invejaria – que, em nome da “segurança nacional”, atinge inclusive os países aliados – os dos tais governos emasculados da União Europeia -, que os Estados Unidos também espionam.  Mas a coisa vai mais longe e começam a surgir outros fatos. Antes a Inglaterra e agora a França – segundo informa o “Le Monde” – também implantaram esquemas similares de espionagem contra seus cidadãos. Portanto, são lobos que comem lobos. Se essas atitudes pérfidas não ameaçassem toda a humanidade, até que seria bom dizermos: “Eles, que são brancos, que se entendam”. Infelizmente, porém, todo esse escabroso caso aponta na direção da supressão das liberdades fundamentais do homem, promovida por fariseus que se autointitulam defensores dos direitos humanos.

O Maraca é deles

Falando em brancos, a cidadania e a democracia foram, como previsto, profundamente arranhadas nos estádios da Copa, onde tudo ficou claro... Em meio ao oba oba geral que amplifica com patriotadas ridículas a bonita conquista do time de futebol brasileiro, só um cego não percebeu, nas transmissões pela tevê, a imensa e praticamente absoluta “branquidão” que tomou conta de todos os caros assentos disponibilizados ao público nos estádios. Desde antes, já se sabia que aos negros caberia, quando muito, entoar os versos de Cazuza, já que não foram convidados para a festa... Resta apenas, agora, depois do branco leite derramado, que o Governo brasileiro assuma o controle de algumas medidas que, na Copa do Mundo, venham, efetivamente, a garantir que, nos jogos da nossa seleção, estejam presentes no estádio, como convém em uma festa popular, todos os segmentos representativos da nossa sociedade. E, além disso, que todos fiquemos de olho nos novos “donos” do Maracanã, cujas primeiras ideias também tendem à elitização daquele que já foi o maior dos nossos templos populares, e que agora passou por um processo de concessão que cheira a falcatruas.

Macaco, olha o teu rabo...


Falcatrua é um substantivo que deveria ser melhor examinado no caso, que as redes sociais estão repercutindo, de uma suposta fraude que teria sido cometida pela Globo, envolvendo sonegação de pagamentos ao fisco. Fala-se em coisa da ordem de 1 bilhão, em valores de hoje... Segundo a Globo, a dívida já foi paga, mas não foi apresentado comprovante.  Seria interessante (e aqui deixo a sugestão) que os empregados da empresa – repórteres, cronistas e comentaristas -, em  nome da transparência, promovessem o tão autoelogiado jornalismo investigativo para esclarecer o público sobre a veracidade ou não desse caso “doméstico”...

Fora, povo!    

Raposa com pele de cordeiro consegue disfarçar-se por pouco tempo. Por isso, o plebiscito não deve sair a tempo de pôr um fim ao descalabro das instituições políticas do país. Por isso, essa guinada da mídia apoiando o “desconforto” do Congresso fisiológico com aquilo que considera “intromissão” da Presidenta ao insistir no plebiscito. Por isso, na coluna de ontem, Merval Moreira cita um filósofo de algibeira para afirmar que um processo que dá poder ao povo através de plebiscitos e consultas populares pode ser chamado de comunismo...

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Imperialismo estadunidense ataca de novo: Snowden, Evo Morales e adeus às ilusões


Por Urariano Mota

Recife (PE) - Os últimos acontecimentos na política internacional trazem uma luz didática para todas as pessoas que acreditam na liberdade e democracia do capitalismo. O mundo do capital, mais conhecido em propaganda e livros didáticos como o sistema de “livre mercado”, recebeu nestes dias uma clareza de desmonte. 

Para situar os fatos nos últimos 30 dias, primeiro Edward Snowden, um ex-técnico da CIA,  revelou para todo o planeta que o governo dos Estados Unidos espiona a vida íntima, pessoal de cidadãos não só no território norte-americano. Se ficasse somente entre os governados por Obama, a espionagem já seria um escândalo, uma prova hard e real do imaginado pelo escritor George Orwell, quando profetizou a existência do Big Brother. Mas o revelado pelo funcionário da CIA foi mais longe. Diplomatas e governos da União Europeia são também espionados. E mais: todos somos rastreados nos telefones celulares e nas informações da internet que passem pelo Google, Apple e o Facebook. E-mails, fotos e outros arquivos dos usuários em todo o mundo são aprisionados. O que é uma realização dos evangelhos: nada escapa aos olhos de Deus.

Depois veio o que nos atinge mais direto na carne. Evo Morales, soberano presidente da soberana Bolívia, depois de uma visita a Moscou, foi proibido de passar pelo espaço aéreo de Portugal, França, Espanha e Itália. Isso porque havia a suspeita de que o  avião presidencial transportasse também Edward Snowden. Notem até onde vai o adeus às ilusões de liberdade, democracia e respeito à soberania dos povos. As nações europeias, elas próprias espionadas, obedeceram à ordem da segurança do governo de Obama. Por hipótese ou suspeita, um chefe de Estado foi impedido de sobrevoar espaço aéreo de  país amigo, sem qualquer declaração de guerra. O espaço era livre, pensava Evo Morales ao sair de Moscou. Mas ficou provado que o céu não é do condor. É dos Estados Unidos.

Mas para o diretor de Políticas do Conselho das Américas – uma organização empresarial que produz análises e estudos sobre a América Latina –, Christopher Sabatini, a questão é bem mais simples. Olhem o que falou para a BBC Brasil: “Parceria é uma via de duas mãos. Para um país ser tratado com respeito, precisa respeitar as prerrogativas de segurança nacional de outro". Entendem? Para Christopher Lee, digo, Sabatini, o presidente Evo Morales foi desrespeitado porque não teria respeitado a segurança dos Estados Unidos.  Notem que a frase  “respeitar as prerrogativas de segurança nacional de outro" não tem o mesmo significado para todos os países do mundo. Pois o analista quer dizer: a segurança nacional do outro é sempre a segurança dos Estados Unidos.

Ou seja, no caso da Bolívia, o presidente Evo Morales pôde sofrer riscos à própria vida, mas não estava no uso da segurança nacional. Com pouco combustível no avião, passou pelo sufoco de um bloqueio do espaço aéreo no céu e por constrangimentos que são insuportáveis até mesmo para passageiros comuns. Ele teve que pousar em Viena, onde ficou 14 horas, até que sua rota fosse enfim autorizada. E depois, reabasteceu o avião  no Brasil, na bela cidade de Fortaleza. A nota oficial da presidenta Dilma foi a mais dura dos países sul-americanos:

“... O noticiado pretexto dessa atitude inaceitável - a suposta presença de Edward Snowden no avião do Presidente -, além de fantasiosa, é grave desrespeito ao Direito e às práticas internacionais e às normas civilizadas de convivência entre as nações. Acarretou, o que é mais grave, risco de vida para o dirigente boliviano e seus colaboradores.

Causa surpresa e espanto que a postura de certos governos europeus tenha sido adotada ao mesmo momento em que alguns desses mesmos governos denunciavam a espionagem de seus funcionários por parte dos Estados Unidos, chegando a afirmar que essas ações comprometiam um futuro acordo comercial entre este país e a União Europeia”.

De passagem, vale destacar que o tempo da reação de nossa presidenta contra a agressão a Evo Morales,  a demora do governo brasileiro em responder, não foi o que desejam os críticos mais sectários à esquerda, que são ótimos governantes em palavras e desejos. Mas para o colunista importantes são a natureza da declaração e o peso que a economia mais poderosa da América Latina joga contra esse insulto a uma nação irmã. E do meu canto concluo: importa mais a retirada da máscara de um mundo livre sob os Estados Unidos. Nestes últimos 30 dias, ficou demonstrado que o céu não é do condor.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Teatralização do atentado de Boston: fazer esquecer o eventual fim da espécie


Por Leonardo Boff

Precisaria ser inumano e sem sentido de solidariedade e de compaixão não se indignar e não condenar o atentado perpetrado em Boston com dois mortos e centenas de feridos. Mas isso não nos dispensa de sermos críticos. Houve uma teatralização mundial do atentado com objetivos ocultos que devem ser desvendados. Atentados ocorrem muitos no mundo, especialmente no Afeganistão e no Iraque na presença das tropas norte-americanas e dos aliados. Sempre com muitos mortos e centenas de feridos. Quase ninguém dá importância ao fato, já naturalizado e banalizado. Muitos pensam: trata-se de gente terrorista ou próxima a eles, incômodos à ocupação ocidental. Que se matem. Convenhamos: são seres humanos como aqueles de Boston. Mas, as medidas de avaliação são diferentes. Sabemos o porquê.

Precisamos estar atentos ao significado político-ideológico da espetacularização do atentado de Boston. É uma forma de desviar a atenção mundial de questões muito mais fundamentais: a primeira é o estado de terror que o Estado norte-americano está impondo internamente a seus cidadãos e ao mundo inteiro. Com isso atraiçoa o que de melhor tinha: a defesa dos direitos fundamentais. Não fechou Guantánamo, nem ratificou instrumentos internacionais importantes como o Tratado de Roma, da Corte Penal Internacional, nem a Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José de Costa Rica). Não quer que as violações e atentados que seus agentes perpetram pelo mundo afora para garantir o império sejam levados àqueles tribunais.

Mas, pela ininterrupta ocupação das mídias mundiais (a nossa Globo estava em peso por lá), a propósito do atentado, os "senhores do mundo” querem desviar a atenção da segunda questão, esta sim, de consequências funestas e que pode afetar a todos: a ameaça do fim da espécie humana. Primeiro, estes "senhores” devastaram durante séculos o planeta a ponto de ele não poder, sozinho, recuperar sua sustentabilidade. Pelos eventos extremos, dá mostras de que os limites foram ultrapassados. Em seguida, no afã de acumular ilimitadamente e dominar o processo de planetização da humanidade, montaram uma máquina de morte que ameaça a vida na Terra e pode trazer o armagedon para a espécie humana.

Notáveis cientistas do mundo e os mais sérios teóricos da ecologia chamaram atenção para esta ameaça real. Apenas não sabemos exatamente quando e como vai ocorrer. Mas, mantido o curso atual das coisas, ela será fatal. Michel Serres, renomado filósofo francês da ecologia, já o disse: depois de Hiroshima, Nagasaki e agora de Fukushima, a humanidade descobriu um novo tipo de morte: a morte da espécie. Sim, como Gorbachev não se cansa de repetir: podemos destruir toda a espécie humana, sem restar nenhum testemunho, com as armas químicas, biológicas e nucleares que já construímos e estocamos. Segurança? Nunca é absoluta. Lembremos Three Islands, Chernobyl e Fukushima.

Então: a nossa espécie realmente se mostrou o Satã da Terra: aprendeu a ser homicida (mata seus semelhantes), etnocida (quantos povos originários não foram liquidados?), ecocida (devastou ecossistemas inteiros) e agora pode ser especiecida (leva a própria espécie ao suicídio).

O sistema imperial vive buscando bodes expiatórios (antes, eram os comunistas; depois, os subversivos; agora, os terroristas, os imigrantes; quem mais?) sobre os quais recai o desejo mimético e coletivo de vingança. E assim, se autoexime de culpas e de erros. Mas, principalmente, faz de tudo para que esta ameaça letal sobre a espécie humana não seja lembrada e se transforme numa consciência mundial perigosa.

Ninguém aceita passivamente um veredito de morte. Vai lutar para garantir a vida e o futuro comum. Este deveria ser o objetivo de uma governança global que exige a renúncia de uma vontade imperial que pensa só em sua perpetuação em vez de pensar no Bem Comum da Mãe Terra e da Humanidade. Por mais que se manipule o atentado de Boston, por quanto tempo, os poderosos ocultarão a situação dramática que pesa sobre nós? Oxalá, acordemos todos, simplesmente porque não queremos morrer, mas viver e irradiar.

[Leonardo Boff escreveu Proteger a Terra-cuidar da vida: como escapar do fim do mundo, Record 2011].


terça-feira, 23 de abril de 2013

Kerry: golpista e defasado [Diria eu: GOLPISTA E SAFADO!]


Por Mário Augusto Jakobskind

O Secretário de Estado norte-americano John Kerry acredita que o continente latino-americano ainda vive em tempo passado quando sucessivos governos estadunidenses decretavam a derrubada de presidentes constitucionais e apoiavam ditaduras, como aconteceu no Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Bolívia e assim sucessivamente.

Defasado no tempo e no espaço, Kerry disse, em depoimento no Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara de Representantes, que a Améria Latina é “nosso pátio traseiro e temos de que nos aproximar de forma vigorosa”. Ele exortou o governo de Barack Obama a fazer um esforço especial com os países latino-americanos.

Kerry simplesmente ignora que hoje os tempos são outros e no continente latino-aemericano existem governos independentes que zelam por sua soberania, não aceitando injunções como as defendidas pelo Secretário de Estado norte-americano.

Kerry fez o jogo do oposicionista venezuelano Henrique Capriles ao afirmar que o governo Obama não reconheceria o triunfo de Nicolás Maduro. Na prática apoiou um golpe contra a ordem constitucional sob o pretexto de denúncias sobre suposta fraude no pleito presidencial do último dia 14 de abril .

Observadores internacionais, inclusive do Centro Jimmy Carter, negaram as denúncias. A UNASUR (União das Nações Sul Americanas), reunida extraordinariamente para analisar os acontecimentos na Venezuela, e a Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe) exortaram a oposição a respeitar a legalidade e assim sucessivamente.

Mesmo com o apoio de Kerry, o candidato derrotado Henrique Capriles acabou baixando a crista golpista diante das manifestações da Unasur e Celac. Capriles foi o responsável pela violência que resultou em oito mortes e centenas de feridos.

Como prova de que o Estado venezuelano quer acabar de uma vez por todas com as acusações sem provas apresentadas por Capriles, ficou decidido que o Conselho Nacional Eleitoral vai auditar, em um prazo de 30 dias, todos os votos (já tinham sido 46%).

De qualquer forma, tanto a Unasur como a Celac e os governos latino-americanos de um modo geral não podem baixar a guarda, porque os golpistas de todas as matizes são capazes de continuar em suas investidas. O alvo principal continuará sendo a Revolução Bolivariana.

Os colunistas de sempre apresentam a Venezuela em total descalabro econômico, como se o país estivesse beirando o caos. Esta gente entende que o “bom” em economia é a execução do projeto neoliberal com o enfraquecimento do Estado. E no caso da Venezuela, a “normalidade” acontece quando a burguesia venezuelana nos fins de semana se diverte e faz compras de toda espécie em Miami. E quando o dinheiro do petróleo, antes da acensão de Chávez, ia para as mãos de poucos milionários e corruptos.

Maduro é o presidente que governará a Venezuela até 2019. Ao tomar posse se disse disposto a conversar com todo mundo, até mesmo com o “novo Carmona”, em alusão ao empresário golpista de 2002 e ao atual Henrique Capriles.

Maduro terá dificuldades a enfrentar, sem dúvida, como Hugo Chávez, porque a Revolução Bolivariana contraria interesses de segmentos que aproveitavam as benesses do Estado em detrimento da maioria da população. Como isso acabou e a maioria da população não quer a volta desses tempos, os golpistas da Venezuela tentam de tudo, mas quando se apresentam na disputa eleitoral não têm coragem de dizer o que fariam se eleitos. Usam até uma linguagem reformista, como fez Capriles, para iludir eventuais incautos. Se falasse mesmo a verdade, seria repudiado avassaladoramente.

domingo, 21 de abril de 2013

Na maior potência "democrática" do planeta: estado de direito em risco


Por Eliakim Araújo

"Você tem o direito de permanecer em silêncio, tudo o que você disser poderá ser usado contra você no tribunal. Você tem o direito de ter um advogado presente durante qualquer interrogatório. Se você não puder pagar um advogado, um defensor público lhe será indicado”.

Quem nunca viu nas produções hollywoodianas a cena clássica do policial recitando essas palavras enquanto coloca as algemas em alguém suspeito de ter cometido algum crime? 

Essa regra - conhecida como “Direitos de Miranda” (Miranda Rights), por ter se originado de um caso criminal envolvendo um certo Ernesto Miranda contra o Estado do Arizona – passou a ser obrigatória por determinação da Suprema Corte dos EUA, na década de sessenta, e vale para qualquer tipo de criminoso, não importa a natureza do crime por ele praticado. Sua função é proteger o suspeito de constrangimentos ilegais praticados por investigadores policiais, que podem ir da pressão psicológica até a tortura física. Daí a presença obrigatória de um advogado em todas as fases processuais.

Mas a regra pode deixar de ser obrigatória para o jovem suspeito de ter implantado as bombas na linha de chegada da maratona de Boston. O sobrevivente do atentado, Dzhokhar Tsarnaev, de 19 anos, permanece internado em estado grave em um hospital de Boston, enquanto as autoridades de Washington discutem se, no caso dele, a regra deve ser quebrada, dando-lhe o tratamento de “terrorista”, sem os direitos garantidos pela Constituição dos EUA.

Argumentam que o suspeito representa uma “continua ameaça à segurança”, única exceção para a quebra da regra dos “Direitos de Miranda”. Mas esse não é o caso dos irmãos Tsarnaev, quando a própria polícia já admitiu a inexistência de outros envolvidos no incidente. Com um deles morto e o outro preso, não há como se abrir uma exceção à regra legal, negando-se ao suspeito sobrevivente o direito a um advogado e de permanecer calado durante o interrogatório policial.

Sozinho, sem testemunhas, nas mãos de investigadores truculentos e especialistas em “arrancar” confissões de suspeitos, o jovem universitário poderá confessar o que fez e o que não fez. Ainda mais depois que as autoridades estadunidenses anunciaram que “uma equipe de elite” vai interrogar Dzhokhar.

Quem viu o filme Zero Dark Thirty (no Brasil, “A hora mais escura”) sabe do que um torturador é capaz.

É contra o risco do jovem checheno cair nas mãos de investigadores do tipo dos personagens retratados no filme que a American Civil Liberties Union, uma associação que luta pela defesa dos direitos civis, tem levantado suas preocupações com o tratamento que o suspeito poderá receber entre as quatro paredes de uma repartição policial.

É natural que um crime como o da Maratona de Boston, que deixou três mortos e dezenas de feridos, alguns mutilados, choquem a opinião pública. Com a emoção à flor da pele, a tendência das pessoas é a de exigir justiça “a qualquer preço”, sem maiores preocupações com as regras processuais e legais. Mas essa exacerbação de espíritos tem sua dose de risco.

Defender um tratamento especial para alguém acusado de ter cometido um crime de tamanha perversidade não é objetivo desta coluna. Com certeza também não o é da American Civil Liberties Union. Todos estamos de acordo que Dzhokhar, se considerado culpado, deve ser punido com o rigor da lei.

Mas o que não se pode e não se deve é  compactuar com a quebra de uma regra legal criada exatamente para proteger suspeitos, muitos deles inocentes, da truculência policial. Os direitos de permanecer em silêncio e de ser assistido por um advogado são garantias constitucionais e sua não observância constitui uma afronta à condução de um processo legal de maneira justa e transparente.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Lula critica EUA por apoio à recontagem de votos na Venezuela

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff nesta segunda (15), em seminário do PT em Belo Horizonte (Foto: Pedro Triginelli/G1)
'Vira e mexe os americanos cismam em contestar uma eleição', disse. Em seminário do PT, ex-presidente pediu salva de palmas para Maduro.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta segunda-feira (15) o apoio dos Estados Unidos à recontagem de votos na eleição presidencial da Venezuela. O resultado, que deu vitória apertada a Nicolás Maduro, herdeiro político de Hugo Chávez (1954-2013), foi contestado pelo candidato adversário, Henrique Capriles.

Nesta segunda, a Casa Branca disse que uma auditoria seria um passo "importante, prudente e necessário para assegurar que todos os venezuelanos tenham confiança nestes resultados".

Durante um seminário do PT em Belo Horizonte, ao lado da presidente Dilma Rousseff, Lula disse que "vira e mexe os americanos cismam em contestar uma eleição".

"É muito engraçado porque, com todo respeito que eu tenho pelos americanos e, certamente, a diplomacia não permite que no exercício do mandato a gente diga todas as coisas que quer, mas como ex-presidente a gente pode dizer porque vira e mexe os americanos cismam em contestar uma eleição. [...] Por que eles [americanos] não se preocupam um pouco com eles e deixam que a gente decida o nossso destino?", alfinetou.

Antes, Lula pediu uma salva de palmas para Maduro, pedido prontamente atendido pelos políticos e militantes petistas que lotaram auditório na região central da capital mineira.

A auditoria nas eleições venezuelanas foi pedida pela oposição, após a vitória apertada de Maduro sobre Capriles, que pediu que o Conselho Nacional Eleitoral não proclame o chavista presidente antes da recontagem de votos.

EUA e Venezuela mantinham uma relação de rivalidade desde a subida de Chávez ao poder, em 1998, e Maduro, como presidente interino após o afastamento e a morte de Chávez, continuou com o discurso anti-americano, apesar dos laços comerciais entre os dois países.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Para justificar assistência militar à ditadura, EUA diziam que tortura era exceção

Dirigentes do PCdoB mortos pelo exército
Em 76 e 77, Departamento de Estado liberou cerca de US$ 661 milhões em créditos para compras de armas pelos militares; para embaixador, dinheiro não fomentava “práticas repressivas”

“Como a tortura é vista como uma prática de uma pequena minoria e não das forças militares brasileiras como um todo, a assistência militar americana não é tida como fomentadora de práticas repressivas”. Foi com essa frase que o então embaixador dos EUA em Brasília, John Crimmins, encerrou o despacho diplomático enviado a Washington em 12 de março de 1976. Tratava-se de uma avaliação oficial sobre a situação dos direitos humanos no país, para que o país pudesse continuar recebendo assistência do governo americano.

Mas o relatório enviado por Crimmins, assim como sua esdrúxula conclusão, são desmentidos pelos próprios documentos da embaixada encontrados na Biblioteca Pública de Documentos Diplomáticos dos EUA (PlusD), do WikiLeaks. Em diversos despachos, os representantes americanos mostram estar plenamente cientes das torturas praticadas pelos agentes da repressão. Mesmo assim, os EUA investiam pesado em armar e treinar os militares brasileiros e consideravam essa assistência estratégica para manter a proximidade com os militares no poder.

Um capitão do exército brasileiro, por exemplo, recebeu, durante 13 semanas, formação para “forças especiais” em Fort Bragg, na Carolina do Norte. Diante das possíveis críticas do Congresso, que questionava o governo americano sobre o apoio a ditaduras sulamericanas, o Departamento de Estado até tentou cancelar o curso. A resposta da embaixada não poderia ser mais clara:  “Neste país em que há panelinhas ao redor de cada um dos membros de alto escalão do governo, o candidato selecionado [para treinamento pelos EUA] é assessor de um general sênior e politicamente poderoso”, descreve o despacho confidencial. “É claro que se cancelarmos [a ida dele] vamos perder parte da boa vontade que esperávamos ter”.

Em muitos despachos Crimmins elogia o governo de Ernesto Geisel (1974-1979), afirmando que embora as “prisões arbitrárias, tortura e prisões por crimes políticos de opinião ou livre associação” continuassem sendo preocupação mundial, “os esforços da administração Geisel para submeter o aparato de segurança ao seu controle e acabar com abusos notórios têm gerado ganhos e perdas para os dois lados. No momento presente, a administração tem vantagem”.

O então embaixador também negava a tortura no governo Geisel: “Relatos indicam que não há pessoas sendo torturadas agora e o clamor público em casos de prisão está sendo respondido prontamente”, escreveu em março de 1976, embora admitisse que “a prática” era “nova” e que “a guerra contra a subversão” continuava. E concluiu: “Enquanto houver prisões, permanece o potencial para abusos”. Segundo ele, diplomatas e militares americanos haviam manifestado “preocupações” em relação a maus tratos a congressistas, advogados, policiais e religiosos, sem no entanto recusar carta branca para que os EUA mantivessem assistência militar dos EUA para o país.

No mesmo relatório o embaixador ainda elogiava o único relatório público sobre a tortura, oRelatório Sobre as Acusações de Tortura no Brasil”, publicado pela Anistia Internacional. “Achamos o relatório altamente relevante e preciso”, escreve, muito embora a conclusão da Anisitia fosse diametralmente oposta à dele. “A tortura, no Brasil, não é nem pode ser o resultado de excessos individuais; nem é, nem pode ser considerada uma reação exagerada a atos terroristas para derrubar um regime em dificuldade que, por seu lado, provoca o famoso ‘ciclo da violência’. Isso não sucede, porque já não existe luta armada no Brasil. A tortura é manifestação e necessidade de um modelo político num contexto jurídico e socioeconômico”, concluiu o advogado francês Georges Pinet no relatório.

No final daquele ano, o exército brasileiro cometeria a famigerada chacina da Lapa, em São Paulo, numa operação deflagrada a partir da tortura do preso João Baptista Franco Drummond, dirigente do PC do B. Os militares invadiram a sede clandestina do PC do B – o partido era proibido de existir legalmente – e executaram Ângela Arroyo e Pedro Pomar, membros do comitê central. Em seguida, foram presos e torturados os dirigentes Elza Monnerat, Haroldo de Lima, Aldo Arantes, Joaquim de Lima e Maria Trindade. Nos anos Geisel, pelo menos 45 militantes da esquerda foram considerados desaparecidos, segundo o livro “Habeas Corpus”, da Secretaria Especial de Direitos Humanos.

O entusiasmo de Crimmins com a assistência militar dos EUA ao Brasil, apesar dos relatos de tortura, já havia sido revelado pelo repórter Rubens Valente na Folha de S. Paulo, com a divulgação de documentos de 1973 e 1974 assinados pelo embaixador. Nesses documentos, ele chegou a afirmar mais de uma vez que a manutenção desse apoio poderia ser uma maneira dos EUA influenciarem o governo brasileiro a coibir abusos.

A estratégia não surtiu efeito, e Crimmins mudou o argumento. Foi em 1975 que o embaixador alegou pela primeira vez que a tortura era “prática de uma minoria” para defender a manutenção do apoio militar.

Se quisesse, o governo americano poderia ter se valido do artigo 32 da Lei de Assistência ao Estrangeiro, que previa o corte de assistência financeira a países que cometiam violações de direitos humanos.

Apenas meses antes, “aumento evidente em casos de tortura”

Nos despachos diplomáticos fica claro que a diplomacia americana recebia diversos relatos de tortura – em especial nos consulados, onde mantinham contato direto com advogados, políticos e religiosos. Em 3 de setembro de 1975 – poucos meses antes do relatório sobre direitos humanos – o mesmo embaixador narrava: “o aumento evidente em casos de tortura pode logicamente (dada a disposição em usá-la) ser interpretado como uma consequência do aumento das prisões de Segurança Nacional, resultante da descoberta da gráfica (clandestina do PCB, em São Paulo) e das investigações subsequentes. Da mesma forma, presumindo que a linha de investigação termine afinal, pode-se prever uma futura queda nas prisões e casos de tortura, sem significar que a prática fora abandonada substancialmente”.

Os relatos mais detalhados vinham dos cônsules no Rio de Janeiro, John B. Dexter (1975-1978), e de São Paulo, Frederic Lincoln Chapin (1972-1980) ao embaixador: “Com respeito a prisões em geral em casos de segurança nacional, o cônsul de São Paulo relatou que advogados atuantes parecem considerar a ‘vasta maioria’ delas arbitrárias ou ilegais. As razões citadas incluem a maneira como as prisões são feitas, nas quais os agentes não se identificam e os prisioneiros são imediatamente encapuzados; a característica de ‘caçada’ da maioria das prisões; a manutenção de prisioneiros incomunicáveis; e a falha em respeitar os requisitos da lei de Segurança Nacional em relação à notificação e limites de tempo da detenção”.

Já o cônsul do Rio afirmava que “o ‘clima de urgência’ ao redor da investigação do PCB levou à prisão de inocentes, resultando não só em vexame para membros do governo, mas em danos substanciais às situações profissionais e financeiras dos prisioneiros”.

No geral, embora muitos dos presos acabassem tendo suas prisões “regularizadas” sob a Lei de Segurança Nacional, “nós ouvimos repetidamente que em outros casos aqueles que são pegos são torturados e subsequentemente mortos”, escreveu Crimmins ao secretário do exterior Henri Kissinger, no mesmo despacho. “Até agora, soubemos apenas de dois novos casos neste ano em que o sujeito (preso) ‘desapareceu’. Mas se os relatos anteriores são bem fundamentados, podemos prever que a ‘lista de desaparecidos’ vai crescer”.

Ele prossegue: “Deve-se notar que mesmo nos casos de prisões regularizadas, algumas vezes surgem acusações de tortura. O cônsul de São Paulo relata que ‘até agora, neste ano, a Comissão de Justiça e Paz da arquidiocese de São Paulo recebeu denúncias de 171 casos de tortura em São Paulo’”.

Duas semanas depois, a embaixada enviou outro documento discutindo denúncias de tortura levantadas pela agência de notícias United Press International, e analisando as subsequentes investigações sobre o assunto. O documento, confidencial, cita o caso de 12 presos acusados de pertencer à Organização Revolucionária Marxista – Política Operária (ORM-Polop), em Goiás e o estrangulamento do preso Pedro Jerônimo de Sousa, militante do PCB, em Fortaleza. “Se o tempo passado desde o mau trato é grande, como costuma ser o caso, ou os torturadores não deixaram marcas físicas, as acusações são extremamente difíceis de se sustentar”. Também comenta a prisão de 30 pessoas ligadas ao MDB no Paraná –  “um evento ameaçador” – mas encerra com uma nota positiva em relação à “tendência do último ano” dos tribunais militares e civis ordenarem investigações de denúncias de tortura, “sugerindo pelo menos alguma apreciação da sensibilidade destes temas e alguma aceitação da legitimidade da imprensa e do interesse público neste assunto”.

Meio bilhão de dólares para fortalecer os militares no poder.

Embora a missão americana soubesse bem o que se passava nos porões da ditadura – e a falta de investigação efetiva – diversos despachos diplomáticos da época mostram o grande volume de recursos que os EUA proviam aos militares brasileiros. Os EUA ofereciam centenas de milhões de dólares em créditos, através do programa Foreign Military Sales (Vendas Militares Estrangeiras), do Departamento de Defesa, para a modernização das forças armadas brasileiras.

Segundo os mesmos despachos, os EUA eram os principais financiadores e vendedores de equipamentos militares para a ditadura. Apenas nos anos de 1976 e 1977, o governo americano planejava destinar cerca de US$ 160 milhões em créditos para compra de equipamentos militares pelas Forças Armadas Brasileiras. Em valores atuais – contando apenas a inflação nos EUA – isso significa cerca de US$ 661 milhões em créditos para a compra de armas, fortalecendo um governo militar ditatorial e sabidamente torturador.

Em um despacho de 24 de dezembro de 1975, Crimmins relata que as restrições de importações, determinadas por Geisel devido a problemas na balança de pagamentos, teria impacto nas compras de armas e equipamentos militares. Para o ano fiscal de 1976, em valores da época, seriam destinados US$ 19 milhões para a Marinha e US$ 32 milhões para a Aeronáutica, totalizando US$ 51 milhões. No ano seguinte, seriam destinados US$ 15 a 20 milhões à Marinha e US$ 10 milhões à Força Aérea.

O crédito do governo americano serviria para a compra de um caça F-5, além de torpedos MK-37 e radares de controle, segundo outro comunicado, de 19 de novembro de 1975. “As compras de equipamentos militares são para a modernização da força”, escreve Crimmins. “O programa de crédito de vendas militares a estrangeiros (FMS) influencia favoravelmente a aquisição de equipamentos americanos e tecnologias relacionadas e assim ajuda a manter os EUA como a influência militar estrangeira predominante no Brasil em termos de equipamentos militares, tecnologia e doutrina”. O embaixador declarava: “é a maior ferramenta para garantir nosso acesso e influência com os militares, o predominantemente grupo de liderança nacional”.

Crimmins voltaria a defender a relação militar com unhas e dentes em meados do ano seguinte, quando o governo americano, pressionado pelo Congresso, começou a reduzir as verbas para o programa Educação e Treinamento Militar Internacional (IMET, em inglês), uma espécie de intercâmbio que levava militares brasileiros para treinamento nos EUA. O embaixador criticava a possível descontinuação de cursos já agendados: “O corte súbito de verba para treinamento militar (IMET) para o Brasil seria altamente ofensiva, eliminaria um canal muito importante de comunicação com os militares brasileiros e iria levantar suspeitas entre os militares brasileiros de que o interesse dos EUA no Brasil está diminuindo”, escreveu em 12 de julho de 1976.

Entre os cursos a serem cortados estavam um mestrado em engenharia naval em Monteren, na California, para um oficial da marinha brasileira; curso de assalto aéreo no Rio de Janeiro ministrado pela 82ª Divisão Aérea do exército americano para a Brigada Aérea do exército brasileiro; outro de paraquedismo de combate em Fort Lee, na California; e um curso de  formação de forças especiais em Fort Bragg, na Carolina do Norte.

Este último treinamento, dado a um capitão do exército brasileiro a partir de dezembro de 1976, causou desavença entre o Departamento de Estado e Crimmins. Um assessor de Kissinger explicava que o tema era espinhoso: “Diante da possibilidade que o Departamento seja forçado a dar explicações caso a caso e defender as atividades no ano fiscal de 1977, esse curso pode se provar sensível e provocar críticas”, explica o documento, sugerindo que o governo brasileiro financiasse o curso usando a verba de crédito de vendas militares.

“O quociente de irritação e desilusão é obviamente alto”, respondeu a embaixada em Brasília em 5 de outubro de 1976, mencionando que os militares haviam recebido permissão do próprio Geisel, através de decretos presidenciais, para a viagem ao exterior. “Neste país em que há panelinhas ao redor de cada um dos membros de alto escalão do governo, o candidato selecionado é assessor de um general sênior e politicamente poderoso”, argumenta. “É claro que se cancelarmos [a ida dele] vamos perder parte da boa vontade que esperávamos ter”. (19676BRASIL08556_b)

Diante do poderoso argumento, o próprio Kissinger deu sua aprovação pessoal.
Marco Antonio Coelho: embaixada elogiava Geisel, mas consulado sabia de tortura
A discrepância entre as informações sobre tortura recolhidas pelo consulado de São Paulo e os informes otimistas enviados pela embaixada de Brasília para Kissinger – que depois seriam transformados em relatórios oficiais a serem apresentados ao Congresso Americano – chega a ser gritante.
Em março de 1975, o embaixador Crimmins elogiava a reação do governo Geisel à denúncia do ex-deputado federal Marco Antonio Tavares Coelho, dirigente do PCB, eleito pela Frente Popular do estado da Guanabara em 1962 e cassado pelo golpe militar.
Marco Antonio foi preso no começo de 1975 no Rio de Janeiro e transferido para São Paulo, onde permaneceu encarcerado até o final de 1978. Do chamado “cadeião da Mooca” descrevia à esposa Teresa as torturas sofridas marido nas dependências do Departamento de Operações Internas (DOI) do II Exército. “Nem água, nem pão. Nem um urinol. É uma câmara de execução em que só se pensa na morte. Dentro dela o preso só lastima uma coisa: o ‘diabo’ do corpo continua aguentando”, escreveu em uma das 11 cartas que enviou à esposa. “As torturas na cela foram várias. Cinco vezes colocaram-me no ‘pau-de-arara’, horas longas de ‘choques’ cauterizadores queimando partes sensíveis do corpo”.
Teresa denunciou as torturas em uma carta ao então presidente Ernesto Geisel, que prontamente negou. “Diante de relatos de tortura, autoridades competentes ordenaram que ele fosse examinado pelo Instituto de Medicina Legal de São Paulo; os médicos não encontraram nenhum sinal de trauma”, escreveu Crimmins na ocasião. “Assim, foi concluído que os relatos de tortura eram meramente ‘mais um capítulo na insidiosa campanha promovida for a e dentro do país contra as autoridades brasileiras’. No mesmo dia a televisão nacional mostrou vídeos de Colho no pátio da prisão, tanto vestido como usando apenas shorts”.
Crimmins comenta que “é claro que as boas condições aparentes de Coelho no momento não significam conclusivamente que ele não foi maltratado e depois restaurado, mas pelo menos a publicidade mostra deve server como garantia para sua saúde future”. Mas, para o diplomata, a conduta do governo sobre o caso “é mais uma evidência da adoção e execução de uma política de maior abertura e pronto resposta nesses temas”.
O despacho, enviado em 3 de março de 1975, foi escrito apenas três dias antes mais uma reunião o cônsul de São Paulo e o Cardeal Arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns. Durante meia hora de conversa, Arns contou que tentara visitar Marco Antônio Coelho no DOI/CODI por conta das denúncias. Não conseguiu. “O cardeal disse que tinha informação definitiva que o ex-deputado fora de fato terrivelmente torturado”, descreve outro documento, de 10 de março.
Se havia ainda alguma dúvida, Arns ainda informou na conversa que, embora anteriormente ele tivesse ouvido que os aparatos de tortura em São Paulo estavam sendo desmantelados, “a informação mais recente era que a câmara de interrogatório tinha recebido isolamento acústico e sido totalmente equipada com novos instrumentos de tortura ‘importados do exterior’.” A informação vinha de um funcionário do Cebrap que havia sido torturada duas vezes na mesma cela no DOPS – antes e depois da reforma. “O cardeal disse que até agora a Comissão de Justiça e Paz recebeu testemunhos jurados de dez a doze indivíduos alegando tortura, e mais testemunhos orais sugerindo que ‘dezenas de outros’ passaram por variadas formas de tortura em semanas recentes em São Paulo”.
Pelo relato de Crimmins, o cônsul e o assessor político do consulado, ambos presentes na conversa, sugeriram que havia diferentes definições de tortura. “As definições de tortura variam, concordou o cardeal”, relata Crimmins. “Ele disse que inclui na sua ampla definição até mesmo privação de sono em celas pequenas com chão batido e sem móveis, já que isso é usado intencionamente pela polícia para fatigar o prisioneiro. Esse tratamento é acompanhado pela falta de comida e água ou equipamentos sanitários e é tão comum nos procedimentos policiais que a polícia se recusa a reconhecer essas medidas como tortura”.
Apesar de manter conversas telefônicas com Golbery, nas quais protestava contra as torturas, Arns lamentava o “profundo contraste” entre as detenções e o discurso oficial do governo Geisel. “O julgamento do Cardeal é que Geisel não tinha suficiente controle para neutralizar o poder do aparato de segurança”.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Wikileaks revela gravíssima sabotagem dos EUA contra Brasil com aval de FHC


Telegramas revelam intenções de veto e ações dos EUA contra o desenvolvimento tecnológico brasileiro com interesses de diversos agentes que ocupam ou ocuparam o poder em ambos os países

Os telegramas da diplomacia dos EUA revelados pelo Wikileaks revelaram que a Casa Branca toma ações concretas para impedir, dificultar e sabotar o desenvolvimento tecnológico brasileiro em duas áreas estratégicas: energia nuclear e tecnologia espacial. Em ambos os casos, observa-se o papel anti-nacional da grande mídia brasileira, bem como escancara-se, também sem surpresa, a função desempenhada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, colhido em uma exuberante sintonia com os interesses estratégicos do Departamento de Estado dos EUA, ao tempo em que exibe problemática posição em relação à independência tecnológica brasileira. Segue o artigo do jornalista Beto Almeida.

O primeiro dos telegramas divulgados, datado de 2009, conta que o governo dos EUA pressionou autoridades ucranianas para emperrar o desenvolvimento do projeto conjunto Brasil-Ucrânia de implantação da plataforma de lançamento dos foguetes Cyclone-4 – de fabricação ucraniana – no Centro de Lançamentos de Alcântara , no Maranhão.

Veto Imperial

O telegrama do diplomata americano no Brasil, Clifford Sobel, enviado aos EUA em fevereiro daquele ano, relata que os representantes ucranianos, através de sua embaixada no Brasil, fizeram gestões para que o governo americano revisse a posição de boicote ao uso de Alcântara para o lançamento de qualquer satélite fabricado nos EUA. A resposta americana foi clara. A missão em Brasília deveria comunicar ao embaixador ucraniano, Volodymyr Lakomov, que os EUA “não quer” nenhuma transferência de tecnologia espacial para o Brasil.

“Queremos lembrar às autoridades ucranianas que os EUA não se opõem ao estabelecimento de uma plataforma de lançamentos em Alcântara, contanto que tal atividade não resulte na transferência de tecnologias de foguetes ao Brasil”, diz um trecho do telegrama.

Em outra parte do documento, o representante americano é ainda mais explícito com Lokomov: “Embora os EUA estejam preparados para apoiar o projeto conjunto ucraniano-brasileiro, uma vez que o TSA (acordo de salvaguardas Brasil-EUA) entre em vigor, não apoiamos o programa nativo dos veículos de lançamento espacial do Brasil”.

Guinada na política externa

O Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA (TSA) foi firmado em 2000 por Fernando Henrique Cardoso, mas foi rejeitado pelo Senado Brasileiro após a chegada de Lula ao Planalto e a guinada registrada na política externa brasileira, a mesma que muito contribuiu para enterrar a ALCA. Na sua rejeição o parlamento brasileiro considerou que seus termos constituíam uma “afronta à Soberania Nacional”. Pelo documento, o Brasil cederia áreas de Alcântara para uso exclusivo dos EUA sem permitir nenhum acesso de brasileiros. Além da ocupação da área e da proibição de qualquer engenheiro ou técnico brasileiro nas áreas de lançamento, o tratado previa inspeções americanas à base sem aviso prévio.

Os telegramas diplomáticos divulgados pelo Wikileaks falam do veto norte-americano ao desenvolvimento de tecnologia brasileira para foguetes, bem como indicam a cândida esperança mantida ainda pela Casa Branca, de que o TSA seja, finalmente, implementado como pretendia o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas, não apenas a Casa Branca e o antigo mandatário esforçaram-se pela grave limitação do Programa Espacial Brasileiro, pois neste esforço algumas ONGs, normalmente financiadas por programas internacionais dirigidos por mentalidade colonizadora, atuaram para travar o indispensável salto tecnológico brasileiro para entrar no seleto e fechadíssimo clube dos países com capacidade para a exploração econômica do espaço sideral e para o lançamento de satélites. Junte-se a eles, a mídia nacional que não destacou a gravíssima confissão de sabotagem norte-americana contra o Brasil, provavelmente porque tal atitude contraria sua linha editorial historicamente refratária aos esforços nacionais para a conquista de independência tecnológica, em qualquer área que seja. Especialmente naquelas em que mais desagradam as metrópoles.

Bomba! Bomba!

O outro telegrama da diplomacia norte-americana divulgado pelo Wikileaks e que também revela intenções de veto e ações contra o desenvolvimento tecnológico brasileiro veio a tona de forma torta pela Revista Veja, e fala da preocupação gringa sobre o trabalho de um físico brasileiro, o cearense Dalton Girão Barroso, do Instituto Militar de Engenharia, do Exército. Giráo publicou um livro com simulações por ele mesmo desenvolvidas, que teriam decifrado os mecanismos da mais potente bomba nuclear dos EUA, a W87, cuja tecnologia é guardada a 7 chaves.

A primeira suspeita revelada nos telegramas diplomáticos era de espionagem. E também, face à precisão dos cálculos de Girão, de que haveria no Brasil um programa nuclear secreto, contrariando, segundo a ótica dos EUA, endossada pela revista, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, firmado pelo Brasil em 1998, Tal como o Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA, sobre o uso da Base de Alcântara, o TNP foi firmado por Fernando Henrique. Baseado apenas em uma imperial desconfiança de que as fórmulas usadas pelo cientista brasileiro poderiam ser utilizadas por terroristas , os EUA, pressionaram a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que exigiu explicações do governo Brasil , chegando mesmo a propor o recolhimento-censura do livro “A física dos explosivos nucleares”. Exigência considerada pelas autoridades militares brasileiras como “intromissão indevida da AIEA em atividades acadêmicas de uma instituição subordinada ao Exército Brasileiro”.

Como é conhecido, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, vocalizando posição do setor militar contrária a ingerências indevidas, opõe-se a assinatura do protocolo adicional do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que daria à AIEA, controlada pelas potências nucleares, o direito de acesso irrestrito às instalações nucleares brasileiras. Acesso que não permitem às suas próprias instalações, mesmo sendo claro o descumprimento, há anos, de uma meta central do TNP, que não determina apenas a não proliferação, mas também o desarmamento nuclear dos países que estão armados, o que não está ocorrendo.

Desarmamento unilateral

A revista publica providencial declaração do físico José Goldemberg, obviamente, em sustentação à sua linha editorial de desarmamento unilateral e de renúncia ao desenvolvimento tecnológico nuclear soberano, tal como vem sendo alcançado por outros países, entre eles Israel, jamais alvo de sanções por parte da AIEA ou da ONU, como se faz contra o Irã. Segundo Goldemberg, que já foi secretário de ciência e tecnologia, é quase impossível que o Brasil não tenha em andamento algum projeto que poderia ser facilmente direcionado para a produção de uma bomba atômica. Tudo o que os EUA querem ouvir para reforçar a linha de vetos e constrangimentos tecnológicos ao Brasil, como mostram os telegramas divulgados pelo Wikileaks. Por outro lado, tudo o que os EUA querem esconder do mundo é a proposta que Mahmud Ajmadinejad , presidente do Irà, apresentou à Assembléia Geral da ONU, para que fosse levada a debate e implementação: “Energia nuclear para todos, armas nucleares para ninguém”. Até agora, rigorosamente sonegada à opinião pública mundial.

Intervencionismo crescente

O semanário também publica franca e reveladora declaração do ex-presidente Cardoso : “Não havendo inimigos externos nuclearizados, nem o Brasil pretendendo assumir uma política regional belicosa, para que a bomba?” Com o tesouro energético que possui no fundo do mar, ou na biodiversidade, com os minerais estratégicos abundantes que possui no subsolo e diante do crescimento dos orçamentos bélicos das grandes potências, seguido do intervencionismo imperial em várias partes do mundo, desconhecendo leis ou fronteiras, a declaração do ex-presidente é, digamos, de um candura formidável.

São conhecidas as sintonias entre a política externa da década anterior e a linha editorial da grande mídia em sustentação às diretrizes emanadas pela Casa Branca. Por isso esses pólos midiáticos do unilateralismo em processo de desencanto e crise se encontram tão embaraçados diante da nova política externa brasileira que adquire, a cada dia, forte dose de justeza e razoabilidade quanto mais telegramas da diplomacia imperial como os acima mencionados são divulgados pelo Wikileaks.

Plano Brasil


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